Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Em tempo de premiações

 

(1861-1938)
 
O meu Oscar vai para...
Georges Méliès!
Considerado o melhor cineasta do mundo, este ousado sonhador, em tempos de poucos recursos e quase nenhum conhecimento, realizou mais de quinhentos filmes.
Tudo começou quando em 28 de dezembro de 1895, esteve presente na primeira projeção cinematográfica realizada (a saída dos operários de uma fábrica) pelos Irmãos Lumière, e com seu olhar visionário percebeu que aquela novidade poderia ser de grande utilidade para seus shows como ilusionista.  Tendo alcançado certo sucesso e já proprietário do teatro que pertenceu ao mágico Houdini, ele  ganhou um protótipo criado pelo cinematógrafo inglês Robert William Paul e ficou tão entusiasmado com o mesmo que saía filmando cenas do cotidiano em Paris. Um dia a própria câmera parou de repente, mas as pessoas não paravam de se mexer e, quando ele voltou a filmar, a ação feita na filmagem era diferente da ação que ele estava filmando. A esta trucagem ele deu o nome de stop-action; criou várias outras, como perspectiva forçada, múltiplas exposições ou filmagens em alta e baixa velocidade. E foi conquistado pelo desafio. A partir de 1896, suas produções foram constantes.
Respeitado como o “Pai dos efeitos especiais” e chamado por Charles Chaplin de “Alquimista da luz”, Méliès foi o primeiro a usar desenhos de produção e storyboards para projetar suas cenas. Construiu o primeiro estúdio cinematográfico da Europa e com pequenas e inexperientes equipes, ele se envolvia em todas as etapas do filme desde a montagem de cenários até trabalhar como ator. As versões coloridas de seus filmes eram pintadas à mão, quadro a quadro (cerca de 14 mil!).
 

 



 
 
Viagem à Lua (Voyage dans la lune / A trip to the moon) é um filme de 1902 e foi baseado em dois romances populares da época: Viagem ao redor da Lua de Júlio Verne e Os primeiros homens da Lua de H.G.Wells.
No enredo, Barbenfuillis, o presidente, tem um plano audacioso. Uma viagem à Lua através de uma cápsula atirada por um canhão gigante. Ele reúne seu comitê e explica suas intenções. Um membro se opõe violentamente, mas o presidente o reprime na mesma medida e logo seu plano é aprovado. Barbenfuillis e mais cinco outros sábios conhecerão a Lua, porém, conhecerão também seus habitantes, os Selenitas.
O filme não alcançou o reconhecimento esperado, mas as inovações técnicas e a beleza das ilusões fotográficas são inegáveis.
A Primeira Guerra Mundial o levou à ruína, ajudado pela concorrência dos grandes estúdios franceses e americanos. Quase todos os seus filmes foram destruídos ou vendidos por peso e transformados em saltos de sapatos. Esquecido, ele foi obrigado a vender brinquedos de madeira feitos por ele e doces no átrio da estação Montparnasse. Redescoberto alguns anos antes de sua morte, recebeu a Legião de Honra em 1931. No ano seguinte, ele foi colocado em uma casa de repouso humilde em Orly, onde terminou seus dias.






Um pioneirocriador de mundos fantásticos cuja imensa imaginação, inventividade e paixão pelo que fazia devem ser reverenciadas por quem ama a Sétima Arte.
Esta é a versão restaurada do filme. Estava perdida até que um cinéfilo anônimo, no início dos anos 90, doou uma cópia colorida do negativo do curta de Méliès à Cinemateca de Bolonha, na Itália. Iniciou-se então a restauração que foi exibida em Cannes em 2011, junto com uma nova trilha sonora.
Uma observação:
O livro A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, e sua adaptação cinematográfica, são inspirados na história da vida de Méliès e são justas e belas homenagens.







Fonte das imagens e pesquisa: www.fulltable.com
                                                        www.appl.lachaise.net











Por Aline Andra



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O grande ditador (The great dictator)





Muitos o consideravam um demagogo, mas é inegável que Charles Chaplin enriqueceu a História do Cinema com personagens inimitáveis e suas mensagens.
Em O grande ditador (1940), seu primeiro filme falado e o mais lucrativo, ele critica o nazismo e o fascismo em uma sátira inesquecível, genialmente abrindo um espaço para a contestação - segundo Mikhail Bakhtin, filósofo e pensador russo, "existe sempre um elemento de medo, de fraqueza, de resignação, de mentira e de intimidação na seriedade. Já o riso pressupõe que o medo foi dominado, não impondo nenhuma interdição ou restrição. Assim, o cômico engloba um elemento de vitória sobre o temor inspirado por todas as formas de poder, por tudo que oprime e limita."
Devido a sua paródia explícita de Adolf Hitler e da posição humanitária do discurso final, ele foi acusado de ser comunista pelos movimentos anticomunistas que surgiram no contexto da Guerra Fria, motivo suficiente para abalar sua reputação e lhe causar muitos problemas.
Para que sua atuação ficasse perfeita, Chaplin passou várias horas, durante dois anos, na frente do projetor, estudando e analisando todo o material audiovisual que conseguiu localizar sobre a vida de Hitler. Com o roteiro pronto, teve a preocupação de atribuir nomes aos seus personagens que se relacionassem diretamente com os reais. Assim, Adolf Hitler é Adenoid Hynkel, Goebbels é Garbitsch - do inglês garbage, que significa lixo –, Mussolini é Napaloni e Göring é Herring. Nem mesmo a suástica, símbolo oficial do III Reich, foi perdoada, sendo transformada na dupla cruz.
Além de Hynkel, Chaplin também fez o papel de um barbeiro judeu. Em nenhum momento do filme o seu nome é revelado e é dessa forma que os demais personagens se reportam e se referem a ele. No entanto, são nítidas as semelhanças com o famoso personagem de Chaplin - Tramp, o Vagabundo (para nós, Carlitos) -, o chapéu de feltro, os grandes sapatos, as calças compridas e folgadas, acompanhadas de um paletó apertado.
Enquanto Chaplin rodava as primeiras cenas, Hitler invadia a Polônia e iniciava a Segunda Guerra Mundial. Somente após 559 dias, o filme estava terminado, integralmente financiado por Chaplin. A demora na finalização deveu-se ao seu caráter perfeccionista: ele repetia várias vezes a mesma cena e chegava a refilmar algumas, mesmo depois de prontas.
Chaplin chegou a confessar que se soubesse das verdadeiras atrocidades cometidas nos campos de concentração não teria tido coragem para filmar O grande ditador.
Um grande artista com uma história de vida das mais interessantes, um filme empolgante que vale a pena rever e cuja mensagem, a propósito, continua atual.






Por Aline Andra






terça-feira, 22 de julho de 2014

Um doce olhar (Bal)







Ano: 2010 (Turquia, Alemanha)
Diretor: Semih Kaplanoglu
Atores: Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, Alev Uçarer

 

Quem prefere filmes com boas doses de ação e grandiloquência (incluindo trilhas sonoras que, muitas vezes, somam um valor considerável) talvez não goste de Um doce olhar cujo título original significa Mel em turco.
Achei-o perfeito, uma proposta ousada do diretor na sua intenção de oferecer uma obra contemplativa e lenta, cheia de significados que somente uma apreciação tranquila e doce (por favor, não confunda com pieguice) consegue captar.
Esta é uma história de pessoas simples e com todos os sentidos preservados e aguçados como só aquelas que vivem em meio à natureza ainda possuem.
E assim é Yusuf (o encantador Bora Altas), um menino de seis anos que vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu), apicultor que vagueia pela floresta à procura de colmeias e sua mãe Zehra (Tülin Özen), plantadora de chá, numa província cercada de montanhas no norte da Turquia. Arredio e introvertido, Yusuf sente, principalmente na escola, a grande dificuldade de comunicação de todos os tímidos a ponto de sofrer crises de ansiedade que provocam gagueira na hora da leitura ou de necessitar isolar-se na hora do recreio.
Seu silêncio, entretanto, não deve ser associado com apatia. Ao contrário, ele entende e reage ao mundo que vai descobrindo com sensibilidade e discernimento. E encontra ao seu redor, um rico material para observação e aprendizado. Desde os prosaicos sons exteriores que são, propositalmente, a única trilha sonora do filme como o vento nas folhas das árvores, a terra e a lama sendo pisadas, os ruídos dos animais, os galhos caindo, a água em correnteza e tantos outros que dominam a cena quando realmente ouvidos até os barulhos e movimentos do cotidiano de uma casa como o crepitar do fogo, sua mãe trabalhando na cozinha, o sininho que ele carrega preso em si mesmo ou a lua cheia refletida na água. Tudo é relevante e digno de atenção.
Apesar de amado por todos, ele encontra a cumplicidade no pai que, intuitivamente, o deixa à vontade para expressar-se a seu modo. Suas conversas são tão íntimas que devem ser sussurradas como segredos que não devem ser espalhados assim como os sonhos. E o conforto, ele encontra na misteriosa floresta, o lugar que o acolhe quando a vida se apresenta como um susto e uma perda irreparável.
Bal é um filme que provoca uma sensação de sonolência ou adormecimento, não por ser enfadonho como ouvi de alguns, mas por ser apaziguador. Como em seu final.
A fotografia é de uma beleza especial. Com poucos movimentos de câmera, algumas imagens com enquadramentos perfeitos de luz e sombra lembraram-me realmente os quadros do pintor holandês Vermeer.
Vale destacar que o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e é o terceiro de uma série, embora completo em si. Os outros dois longas são Süt (Leite) de 2008 e Yumurta (Ovo) de 2007. A trilogia conta, em retrospectiva, a vida de Yusuf da idade adulta à infância.
 






Por Aline Andra


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Instinto (Instinct)



 

Ano: 1999 (EUA)
Diretor: Jon Turteltaulb
Atores: Anthony Hopkins, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Maura Tierney
 
 
Estou numa fase árida em relação ao cinema. Causa-me espanto perceber que tanta energia e tantos milhões são gastos em filmes sem conteúdo, sem nenhum propósito além de “matar” o nosso tempo (intencionalmente?). E o tempo, coitado, tão generoso e amistoso na sua doação, morre sem entender o motivo de tal desacato.
Enfim, resolvi me reabastecer em terreno conhecido e revi Instinto. Não é possível tecer muitos comentários sobre a história, sem revelar mais que o necessário. Quem já assistiu ao filme sabe que, desde o início, ele já oferece surpresas e um excelente material para reflexão. Anthony Hopkins, intenso e carismático como sempre, constrói um Dr. Ethan Powell com imensa riqueza interior e que, ao desistir de sua condição de “civilizado”, permanecendo na selva e entregando-se ao convívio com os gorilas – objetos de seu estudo como antropólogo – descobre na paz, na contemplação, no sentimento de estar protegido e ser aceito incondicionalmente pelo grupo, o total discernimento sobre a vida em sua essência e sua estreita e inseparável relação instintiva com a natureza.

Isso não significa uma oposição à ciência, mas compreende esta como apenas um meio que poderia ser utilizado para intensificar o viver, sabendo-se que são meras ilusões, desautorizando-a enquanto palavra de verdade, pois o mundo é legítimo em seus enigmas e conflitos insolúveis. A ciência é destronada do trono que ela ocupou após destronar Deus, pois o existencialismo entende que o homem está sobre um abismo sem fundo e sob um céu vazio: lançado ao nada. E esse nada não é aquele niilista, é uma condição humana reconhecida e que, justamente a partir dela, do nada ser, que o homem pode inventar infinitos sentidos para a vida. (Adriel Dutra)

Entretanto, o preço a pagar é muito alto. Tendo sido um cientista conceituado e respeitado pelo mundo acadêmico, passa a ser considerado um homicida desequilibrado e perigoso, um “selvagem”.
Para analisar esta transformação e avaliar sua condição mental, entra em cena o psiquiatra Theo Caulder, numa ótima atuação de Cuba Gooding Jr. Seu personagem tão imaturo em sua necessidade de afirmação e controle, sua arrogante competência e sua rigidez de ideias, sente-se desorientado neste confronto, mas à medida que a relação vai sendo vagarosamente sedimentada, Ethan passa a rever seus conceitos e a sentir a dor da lucidez - a perda das ilusões e das suas expectativas frente à realidade - uma ruptura tão difícil mas necessária para que ele se descubra um homem mais completo e perceba o Existir em toda a sua grandeza.  
 
 
 
 
 
 
Por Aline Andra

 
 

 

domingo, 6 de abril de 2014

Para sempre, José Wilker (1946-2014)




Um curto e valioso depoimento sobre o amadurecimento de um ator, mas principalmente sobre tornar-se uma pessoa que soube usufruir intensamente de muitas curtas e valiosas vidas: a sua e a de seus inesquecíveis personagens.




 


 

Por Aline Andra



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)




 

Morreu inesperadamente hoje, aos 46 anos, este excelente ator que começou a chamar minha atenção em Perfume de Mulher (Scent of a Woman), um filme de 1992, com Al Pacino. Ainda muito jovem, marcou presença com um desempenho que já prometia muito. Não nos decepcionou. Durante seus vinte e três anos de carreira, ele provou sua versatilidade e competência ao tomar posse de personagens que não conseguiríamos imaginar na pele de mais ninguém.
Em 2005, Hoffman interpretou o papel-título do filme biográfico “Capote”, pelo qual conquistou diversos prêmios, incluindo um Oscar de Melhor Ator. Foi indicado por outras duas vezes à estatueta como Melhor Ator Coadjuvante. Ele também foi um premiado ator e diretor teatral. Passou a fazer parte da LABrinth Theater Company em 1995 e, desde então, dirigiu e atuou em diversas produções Off-Broadway. Reconhecimentos mais do que merecidos. Vou torcer para que sua vida pessoal e os motivos de sua morte não sejam por demais esmiuçados pela imprensa. Afinal, o que importa - para quem o admirava - é que não foi só o cenário cinematográfico que perdeu uma figura ímpar. Perdemos todos nós.
Abaixo, uma lembrança de seu talento numa cena impagável do filme Ninguém é perfeito (Flawless) de 1999, com Robert de Niro.



 


 

Por Aline Andra

 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

À Sidney Poitier, com carinho



Fonte: Google


Quem viveu os anos 60, certamente se empolgou com o carisma que este ator emprestou a seus personagens, em filmes que até hoje são lembrados com simpatia. Sidney Poitier marcou presença em um tempo em que o cinema quebrava barreiras de todos os tipos. Questionando sobretudo os problemas da desigualdade racial em muitas de suas atuações, ele “alfinetava” um dos tabus da época.
Sedutor sem ser pretensioso, sabia ser capaz de olhares cheios de significados que ora podiam expressar um charme e uma ternura irresistíveis, ora mostravam uma firmeza de caráter e uma vontade inquebrantáveis.
No mesmo momento histórico importante em que Martin Luther King Jr. ganhou o prêmio Nobel, ele foi o segundo negro a ganhar um Oscar - em 1940, Hattie McDaniel ganhou a estatueta pela sua impagável Mammy em “...E o vento levou” (Gone with the Wind) como melhor atriz coadjuvante - e o primeiro a recebê-lo como protagonista pelo filme “Uma voz nas sombras" (Lilies of the fields) de 1963. Merecidamente, pois foi o primeiro também a desafiar estereótipos e conquistar o respeito de quase todos pelo seu talento e postura. Como nunca existe unanimidade, parte da mídia o acusou de ser “útil” à propaganda de uma América cuja realidade não correspondia aos nobres finais de seus filmes. O fato é que o movimento dos direitos civis realmente formou os contornos de sua carreira e isso não foi pouca coisa. Manifestações não violentas pela igualdade estavam gestando uma nova consciência e Sidney Poitier conquistou seu quinhão de boa vontade para a causa e carregou um fardo político incomum para um astro do cinema.
Em 2002, na 74ª edição do Oscar, ele foi homenageado com o prêmio honorário pelo conjunto da obra e pela sua trajetória e apoio à abertura da indústria do cinema à diversidade racial.
Para mim, menina romântica e à procura de bons exemplos, o Professor Thackeray (de “Ao mestre, com carinho”) com seu magnetismo e dignidade inegociável foi uma descoberta e um encantamento. Inesquecível!
Para lembrar: "Ao mestre com carinho" (To Sir, with love) de 1966 e o também excelente "Adivinhe quem vem para jantar" (Guess who's coming to dinner) de 1967.


 
 
 
 
 
 
 
 

Por Aline Andra

 
 
 

sábado, 26 de outubro de 2013

A experiência (Das experiment)







Ano: 2001 (Alemanha)
Diretor: Oliver Hirschbiegel
Atores: Moritz Bleibtreu, Christian Berkel, Oliver Stokowski, Edgar Selge, Andrea Sawatzki, Justus von Dohnanyi, Maren Eggert

 
Uma experiência psicológica verdadeira realizada em 1971 causou muito constrangimento e polêmica sobre os parâmetros éticos no mundo científico.
 Liderado pelo professor Phillip Zimbardo, da Universidade de Stanford, o projeto conhecido como o “Experimento da prisão de Stanford”, visava investigar o comportamento humano quando os indivíduos são definidos apenas pelo grupo ao qual pertencem. Em uma prisão simulada, reproduzida no porão do Instituto de Psicologia da Universidade, os pesquisadores pretendiam analisar e provar a “Teoria da desindividualização”, que argumenta que pessoas em um grupo coeso e submetidas a certas situações padronizadas de pressão e desconforto, tendem a perder sua identidade pessoal, senso de responsabilidade e consciência, propiciando o aparecimento de impulsos agressivos e antissociais. Voluntários foram selecionados através de testes psicológicos e aceitaram participar da simulação durante 14 dias. Divididos em grupos de “guardas” e “prisioneiros”, submeteram-se às condições e regras inerentes aos papéis que, aos poucos, foram assumindo integralmente. No 6º dia, situações dramáticas de conflito já estavam estabelecidas: prepotência e sadismo por parte dos que detinham o poder, depressão e submissão por parte dos detidos. Antes que o experimento saísse totalmente do controle, foi interrompido.
 
“Dentro de cada um de nós há um conformista e um totalitário e não é preciso muito mais do que o uniforme certo para que ele venha à tona."
 
 
O filme “A Experiência” extrapola o que aconteceu na vida real e, embora usando de alguns recursos cinematográficos corriqueiros, alcança o objetivo de provocar espanto e reflexão.
No começo da simulação, que também deveria durar 14 dias, as regras são claramente explicadas pelos pesquisadores (principalmente a que estabelece a proibição de violência sob pena de expulsão). Os voluntários são pessoas comuns com suas carências, desejos e necessidades e aceitaram participar do experimento principalmente por causa do dinheiro oferecido. A princípio, consideram que tudo poderá ser encarado como um jogo ou um divertimento sem maiores consequências. O ambiente é totalmente controlado e vigiado e as diferenças são imediatamente estabelecidas entre os grupos através do uso de uniformes e imposições que visam reforçar a autoridade dos guardas e a despersonalização dos prisioneiros como, por exemplo, o uso de números de identificação em vez dos nomes.
Logo nos primeiros dias, dois personagens se destacam por suas personalidades: o guarda Berus (Justus von Dohnanyi), que vai se empolgando com o papel de líder de seu grupo e com o poder que descobre ser possível exercer e o preso Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu, um dos atuais destaques do cinema alemão), jornalista que, com uma câmera disfarçada, está atrás de uma boa história e cria propositalmente situações de antagonismo.
Os prisioneiros sofrem e aceitam tratamentos humilhantes e despóticos dos guardas e começam a apresentar distúrbios emocionais. Os chefes da equipe de pesquisadores, Dr. Klaus Thon (Edgar Selge) e Dra. Jutta Grimm (Andrea Sawatzki), decidem não interferir para não comprometer o resultado do trabalho inédito (“tudo pela ciência”) e com tal atitude, praticamente dão aos guardas a permissão para se tornarem cada vez mais abusivos.
A experiência foge totalmente ao controle quando os presos se revoltam e os guardas tomam como reféns os pesquisadores para poderem obter vantagem no controle do motim.
É claro que não vou contar o desfecho que, na verdade, torna-se irrelevante frente ao que se tenta demonstrar: a violência é intrínseca à condição humana, tem muitas faces e a forma de combatê-la depende do comprometimento de cada indivíduo com suas regras e valores internalizados.
Um tipo de filme que não permite a indiferença.


 

 
 
 
 

Por Aline Andra
 
 
 
 

domingo, 8 de setembro de 2013

A música e o cinema - Ennio Morricone

 
 
 
 

Não existem grandes produções cinematográficas sem magníficas trilhas sonoras.  Elas não somente complementam e intensificam belos momentos e atuações como os tornam inesquecíveis e, muitas vezes, “roubam a cena”.
Eu elejo meus filmes prediletos também por suas músicas e, dentre os nomes mais conhecidos e admirados, sempre penso no compositor e maestro italiano Ennio Morricone como o melhor. Quem não identifica os temas de  "Os intocáveis" (The untouchables de Brian De Palma), “A missão” (The mission de Roland Joffé), “A lenda do pianista do mar” (The legend of 1900 de Giuseppe Tornatore),  “Cinema Paradiso” (Nuovo cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore), “Era uma vez na América” (Once upon a time in América de Sergio Leone), "Bugsy" (Bugsy de Barry Levinson) e tantos outros entre mais de quinhentos filmes!
Toda a sua contribuição musical ao cinema é perfeita. Por isso, foi tão difícil escolher um só vídeo e acabei selecionando os temas de “Cinema Paradiso”, um dos mais comoventes filmes que já assisti e o do grandioso “A missão”.
 
 

 


 
 
 

Fonte da imagem: Google

 
 
 
 

Por Aline Andra
 
 
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Lugares comuns (Lugares comunes)



 
 
 
 
Ano: 2002 (Argentina, Espanha)
Diretor: Adolfo Aristarain
Atores: Federico Luppi, Mercedes Sampietro, Arturo Puig, Carlos Santamaría

 
 O diretor Adolfo Aristarain nos oferece uma obra reflexiva, baseada no romance El Renacimiento de Lorenzo F. Aristarain, que discute crises em várias dimensões. Materiais, metafísicas ou filosóficas, o que importa é continuar ciente do que o protagonista chama de “a dor da lucidez” – impiedosa e necessária – e entender questões que, de tão repetidas, tornaram-se “lugares comuns” tais como necessidade e liberdade, livre arbítrio e destino, etc.
No início dos anos 2000, com a Argentina devastada pela crise econômica pós-política do presidente Carlos Menem, Fernando Robles (Federico Luppi) é um professor de Literatura numa universidade de Buenos Aires e crítico literário. Com convicções humanistas e iluministas, ele tenta provocar em seus alunos a necessidade de questionar, usar a Razão para tornar-se consciente de um mundo que sobrevive no caos e na desordem.
Casado com Lili (Mercedes Sampietro), uma assistente social que também sente no seu trabalho as consequências da crise do país, ele sofre o baque de ser obrigado - por decreto - a se aposentar. A partir daí, não só passará a receber uma remuneração muito aquém das despesas e necessidades do casal, como se sente compelido ao limiar da “velhice”, com toda a falta de expectativa que isso implica. Fernando entra em depressão e desabafa em seu caderno de apontamentos e pequenas crônicas, seu sentimento de derrota pessoal e do que acredita.
“Eu sei que existe a desordem, a decepção e a desarmonia. Existe um país nos destruindo, um mundo que nos expulsa, um assassino impreciso que nos mata dia após dia, sem que percebamos. Não tenho uma resposta. Escrevo do caos, da mais completa escuridão.”
Enquanto fazem uma viagem de férias a Madri, onde já moraram durante o exílio em plena ditadura militar, para visitar o filho Pedro (Carlos Santamaría), com quem Fernando está em choque  por sentir que fracassara na sua educação ao vê-lo abandonar uma promissora carreira literária e o seu país, buscando estabilidade financeira na Espanha e tomando decisões previsíveis e padronizadas, o casal entende mais precisamente sua condição de "estrangeiros" em qualquer lugar.
Com a ajuda de um amigo, vendem o apartamento onde sempre viveram e compram uma chácara no sul da Argentina. Buscando uma solução financeira, começam a plantar lavanda para destilar a essência e importar para produtores europeus de perfumes. Numa alusão à Revolução Francesa, Fernando pinta numa placa branca, vermelha e azul, o nome do lugar: “1789”. Colocando em prática suas ideias e crenças (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e percebendo a felicidade de Lili, ele sente a esperança e o inconformismo se reacenderem.
Lindo retrato intimista da reinvenção de um casal desiludido, no momento em que só tem um ao outro.
Em minha opinião, um ótimo filme – quase um manifesto – onde brilham não somente atores e diretor, mas também uma trama bem urdida e diálogos inteligentes e sem sentimentalismos.
 
 

 
 
 

Por Aline Andra
 


terça-feira, 16 de julho de 2013

Fred & Ginger

 
 
Fonte: Google
 

Não por acaso, adoro filmes antigos e canções clássicas americanas. Passei incontáveis e inesquecíveis tardes de minha infância, na frente da televisão, assistindo aos musicais de Hollywood. Filmes que transformaram  a indústria cinematográfica - o gênero musical  foi considerado a melhor forma de explorar a novidade do som na sétima arte e contaria com a colaboração dos principais artistas da Broadway - e marcaram uma  época (entre 1930 e 1960).  Anos mais tarde, alimentaram minha imaginação e, certamente, tiveram influência na minha formação.
As histórias românticas (e tão ingênuas) e o glamour de imensos cenários onde atores-dançarinos-cantores, principalmente os incomparáveis Fred Astaire e Ginger Rogers, quase flutuavam em coreografias perfeitas, faziam-me prender a respiração e desconfiar que o romance devesse ter leveza, graça e sobretudo elegância. Um saudável contraponto para uma realidade com exemplos áridos.
 

 
 
 
 
 

Por Aline Andra

 
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Nenhum a menos (Not one less)





 

Ano: 1998 (China)
Diretor: Zhang Yimou
Atores: Wei Minzhi, Zhang Huike, Tian Zhenda, Gao Enman, Sun Zhimei

 

 O filme quase documental – vencedor do festival de Veneza de 1999 – tem como referência principal a dura realidade de uma escola da zona rural da China, com poucos recursos e situada numa comunidade tão carente que as crianças, muitas vezes, são obrigadas a abandonar a escola para ajudar os pais no orçamento familiar (qualquer semelhança com o Brasil  é mera coincidência!).
O professor Gao tem que se ausentar por um mês para cuidar da mãe doente. No seu lugar, diante da recusa de pessoas mais capacitadas para substituí-lo, apresenta-se Wei, uma menina de 13 anos de idade, um pouco mais velha que seus alunos do 1º ao 4º ano e completamente despreparada para assumir a tarefa imposta pelo professor: não permitir a evasão de nenhuma criança sob pena de não receber o dinheiro que irão lhe pagar pelo trabalho.
Ela, além de sua incapacidade intelectual e timidez, começa a dar as aulas de forma vacilante e sem comprometimento, uma vez que só aceitou o encargo por causa do pagamento. Sequer é reconhecida ou respeitada como “professora” pelas crianças sem que haja também por parte dela qualquer gesto de afirmação. Quando uma aluna, com talento esportivo, é requisitada para treinamento em corridas, ela tenta impedir sua saída da escola, mas não consegue e começa a se preocupar com as consequências, apesar das garantias do prefeito da aldeia. Mas quando Zhang Huike – o aluno mais bagunceiro – é obrigado a sair da escola para trabalhar e saldar as dívidas da família, Wei acaba demonstrando a força de seu caráter e sua obstinação quando decide ir buscar o menino na cidade grande, enfrentando os percalços financeiros e sua inexperiência de vida. Unindo o grupo de crianças em um objetivo comum, ela os conduz intuitivamente através de lições de planejamento conjunto, solidariedade, criatividade e ética, numa teia de gestos e atitudes que vão transformando sua atuação como professora e desenvolvendo competências até então desconhecidas. Para a dedicada procura de Wei por Zhang Huike não existe limite.
Na cidade, o que se torna marcante é a distância que separa a realidade precária e plácida da comunidade de Wei do ritmo frenético e próspero da cidade grande em pleno processo de modernização da China. E isso acontece ao mesmo tempo em que Wei e Zhang Huike vivem uma exploração de suas possibilidades e de suas existências. Algumas cenas, que retratam essas experiências, tem singela beleza.
O diretor escolheu construir o filme com muita improvisação e, além disso, recorreu a atores não profissionais que exerciam funções idênticas ou similares as de suas personagens e que, inclusive, usaram seus nomes verdadeiros, o que trouxe maior veracidade e realismo social à obra.


 






 
Por Aline Andra

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Hair, o musical



 

 

 Ano: 1979 (EUA, Alemanha Ocidental)
Diretor: Milos Forman
Elenco: Treat Williams, Beverly D'Angelo, John Savage,
              Annie Golden, Dorsey Wright, Nicholas Ray

 

 Revi o filme Hair com uma grande expectativa. Tinha 21 anos quando o vi pela primeira vez e o tempo muda muitas opiniões e emoções, mas não me decepcionei (nem comigo, nem com o filme). Ainda senti a mesma provocação e admiração.
Considerado uma excelente adaptação do rock-musical do mesmo nome encenado na Broadway em 1967 e criado por James Rado, Gerome Ragni e Galt MacDermot – embora as duas versões partilhem algumas das canções e nomes de personagens, diferem em vários aspectos – a bela produção dirigida por Milos Forman (que também admiro por Um estranho no ninho e Amadeus) é um dos melhores retratos da contracultura hippie com seus aspectos mais sublimes e mais sórdidos e da revolução de costumes dos anos 60. Muitas de suas canções tornaram-se “hinos” dos movimentos populares anti-Guerra do Vietnã nos Estados Unidos.
O filme conta a história de Claude Hooper Bukowski (John Savage), um ingênuo rapaz (representante da América conservadora) de Oklahoma que foi convocado para a Guerra do Vietnã. Ao chegar a Nova Iorque para apresentar-se ao exército, encontra um grupo de hippies com conceitos nada convencionais sobre o comportamento social e adeptos do pacifismo. Convivendo com eles, Claude também se apaixona por Sheila (Beverly D'Angelo), uma jovem rica, entediada com os valores familiares que ela começa a questionar. George Berger (Treat Williams), o líder do grupo, é o oposto do jovem humilde do interior. Filho de burgueses tradicionais, inquieto e contestador, acolhe Claude e junto com seus amigos, tenta convencê-lo a destruir a carta de convocação e a entender os seus ideais de paz e amor através da vida comunitária desprendida das ideologias políticas. A orgia, o sexo livre, as drogas, a desestruturação da igreja e da família são os instrumentos para a afirmação desse novo mundo que querem implantar, como fica claro na primeira canção do musical “Chegou! Chegou a nova era”.
O final é surpreendente e trágico, mas o que lhe confere peso e verdade é a crítica amarga, enfática e não menos atual à sociedade e sobretudo ao governo, representado pela absurda Guerra do Vietnã. A mensagem é de que, inevitavelmente, o poder e a máquina governamental acabam por destruir a todos, mesmo aqueles que não compartilham de suas ideias.
Uma utopia? Certamente. A nova era não vingou e a luta de toda uma geração, apresentada na sua forma mais extremada e radical, os hippies, é agora uma página virada na história.
Mas, pelo menos, eles sonharam e tentaram, não é?
 
"O resto é silêncio".



 
 




Por Aline Andra
 
 

terça-feira, 26 de março de 2013

A noite dos desesperados (They shoot horses, don't they?)





Ano: 1969 (EUA)
Diretor: Sidney Pollack
Atores: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Susannah York, Gig Young, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Bruce Dern


Achei  apropriado comentar sobre “A noite dos desesperados” (a tradução do título foi, como quase sempre, pouco original) do competente diretor Sidney Pollack, dando continuidade ao tema do post anterior sobre as maratonas de dança nos anos 30.
Vi o filme pela primeira vez ainda muito jovem e cheia de certezas (como todos os jovens). Achei-o muito bizarro e perturbador. Agora, já não tão jovem e com menos certezas, acho-o terrivelmente comovente e verdadeiro.
 Um retrato perfeito do turbulento e sofrido período da Grande Depressão americana, o filme - baseado no livro homônimo de Horace Mccoy, publicado em 1935 - conta-nos a história de diversos casais participando de uma maratona de dança. O argumento inteligentemente elaborado mostra com realismo como os concorrentes ao prêmio de 1500 dólares, com seus motivos e dramas pessoais, vão se desgastando em todos os sentidos à medida que continuam dançando por dias seguidos, o que também vai revelando a personalidade dos personagens.
Como cada um lida com esse ataque destrutivo sobre a resistência física e emocional – que não deixa de ser uma analogia ao ataque igualmente destrutivo dos acontecimentos políticos, econômicos e sociais que assolaram a estabilidade e os sonhos de uma geração – é o grande trunfo do filme e da história.
Jane Fonda (no seu primeiro papel dramático) brilha como Gloria Beatty, determinada, amarga e desiludida e que vai perdendo a vontade de competir e de viver num mundo intolerante e cruel. Michael Sarrazin como Robert convence interpretando o jovem apático, com uma indolência causada pela pobreza e a falta de perspectiva tão comum na época, mas que no final tem a atitude decisiva e, a meu ver, cheia de compaixão e lucidez. Gig Young mereceu o Oscar de melhor ator coadjuvante do ano como o apresentador Rocky, cínico e realista e Susannah York surpreende com sua comovente Alice que vai se desconstruindo na medida em que vai se fragilizando.
A propósito, o título original que pode ser traduzido livremente para “Eles atiram em cavalos, não atiram?” -  a frase final de Robert - é uma metáfora belamente construída e coerente com o enredo porque se refere ao sacrifício de cavalos feridos quando eles não tem cura, para que não sofram mais.
Um filme impiedoso como devem ser todas as obras que buscam instigar a reflexão.

Frase de Rocky: “Isto não é concurso, é show. As pessoas não estão nem aí para o vencedor. Querem ver um pouco de sofrimento para que se sintam melhor.”

  
  



 

Por Aline Andra

 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Goethe!






Ano: 2011 (Alemanha)
Diretor: Philipp Stölzl
Atores: Alexander Fehling, Miriam Stein, Moritz Bleibtreu, Volker Brunch


Um movimento cultural e político tomou conta da Alemanha e Reino Unido no final do séc. XVIII em detrimento do curso de pensamento vigente que era o da racionalidade. Tratava-se do Romantismo. E como todo movimento que se entende por revolucionário, chegou dominador e radical.
O Romantismo privilegia a imaginação, a exaltação dos sentidos, a exploração de mundos diferentes e a poesia como expressão máxima de sentimentos profundos e sofridos. Enfim, o mundo encheu-se de "heróis".
Essa oposição razão x sentimento é mostrada magistralmente pelo diretor Philipp Stölzl no filme "Goethe!".
O ator Alexander Fehling interpreta um Johann Wolfgang von Goethe de forma arrebatadora e comovente em sua juventude rebelde, sua paixão pela poesia e consequente frustração e insegurança ao se deparar com a incompreensão dos editores, professores e, sobretudo, seu pai.
Ao ser enviado para a pequena cidade de Wetzlar - depois de seu fracasso acadêmico -  para trabalhar no tribunal de justiça e tornar-se advogado, confronta-se com esse mundo da razão e seus deveres, tradições e conformismo. Entretanto, busca na amizade por seu colega de trabalho Wilhelm Jerusalem (Volker Bruch) e no amor impetuoso por Charlotte Buff (Miriam Stein), sua própria identidade e motivação para viver.
Ao escrever “Os sofrimentos do jovem Werther” (publicado em 1774) em homenagem à sua história de amor, ele finalmente encontra sua redenção e torna-se um dos escritores mais importantes da Alemanha.
Seu livro influenciou toda uma geração de “românticos” a ponto de aumentar consideravelmente a taxa de suicídios cometidos por amor.
Impecável reconstituição de época, belas atuações, ótima trilha sonora, o filme lembrou-me um retrato em sépia numa moldura antiga. Lírico, poético e divertido na medida certa. Para ser visto mais de uma vez e apreciado em todos os detalhes.



    




Por Aline Andra