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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A Casa




Estive à procura de um lugar para chamar de meu. Um território neutro para estar com meu amado, sem erros ou demandas. Sozinhos como sempre deveria ter sido. Sozinha como sempre foi minha condição ideal de estar.
Vi o anúncio numa loja de nossa rua, em pequeno e descompromissado pedaço de papel: “Alugam-se quartos”. Pensando tratar-se de pessoa que também aluga apartamentos para estudantes – espaços funcionais, geralmente meio detonados pela urgência de todos os jovens e por isso mais facilitados -, telefonei. Atendeu-me uma voz jovem e absolutamente comedida que me disse estar a alugar a casa inteira a quem a desejasse. Desejei.
O dono da casa, cabelos brancos e franco olhar de azul transparência, recebeu-nos no portão, acompanhado de enorme cachorro de pelo negro, dentes arreganhados de falsa grosseria e dulcíssimos olhos cor de mel.
Guiados por estreito caminho, com cores e folhas batendo no meu rosto, já alertada para algo que se adensava como uma boa surpresa, ela surgiu. E ali mesmo, me explodiu a certeza e um ataque de pânico, pois soube de imediato que não haveria volta. Lá ficaria. Naquele sobrado branco, de antigas janelas de madeira pintadas de verde. Uma casa simples, mas com nobreza e muitas estórias para contar.
Na frente, um jardim enriquecido por enorme jabuticabeira coberta de frutos, muitas flores e espaço sobrando para mais. Um oásis perfeito de paz e silêncio a alguns minutos de uma das ruas mais movimentadas da cidade.
A burocracia e um advogado renitente e escandalizado com as parcas comprovações de minhas boas intenções (escolher viver sem muitas amarras tem um preço), tornaram a conquista dela mais difícil. O proprietário, eu desconfio, um "estrangeiro" em um mundo que exige cautela e precaução, escolheu não correr riscos.
Mas, como muitas vezes se comprova, estava escrito.
Sinto que a casa estava à minha espera e um sentimento de pertencimento me invade, apesar de saber que ela não é minha e terá prazo de validade. Durante o tempo que nos couber e por boa parte do dia, seremos somente nós duas a proteger e cuidar uma da outra.
Não tenho medo de seus fantasmas, caso lá habitem. Eles não arrastam correntes como muitos dos vivos que tive o desprazer de conviver até agora. Acima de tudo, acho que perderei o medo dos pensamentos escuros e ermos que me assombram. 
Haverá tanto por fazer e aprender que a vida se afigura como um recomeço, um descobrimento da terra prometida. Estaremos bem.
Para você, nesse novo ano que se aproxima, eu desejo o melhor que posso imaginar. Mas, sobretudo, desejo que também descubra o seu oásis, dentro de si mesmo ou sobre a terra. Afinal, a diferença pode ser tênue...  

 

 

  


Por Aline Andra


 


  

domingo, 19 de outubro de 2014

O desequilíbrio e o tempo



 
Time slice photography - Dan Marker-Moore



Por questões econômicas que convém não perturbar ou remexer em demasia por encontrarem-se em horizonte sujeito a intempéries, exatamente à meia-noite (a hora mágica, preferida dos poetas e contadores de histórias) e em plena primavera, adiantamos os relógios em uma hora no que se cogitou chamar inapropriadamente e com muita falta de criatividade de Horário de Verão. O homem, desrespeitado em sua intenção e autonomia, se equivoca e se embaralha em noites-dias e dias-noites, numa confusão de luzes e sombras, na vã tentativa de entender a nova norma estabelecida por conveniência.  E o tempo, tranquilo e são, continua imperturbável o seu caminho. Já as estações, que por aqui nunca foram muito seguras de si, acabam por sofrer um agudo surto de identidade que dura alguns meses. Eu, que não estou no melhor dos humores, concluo que a vida faz-me rir - felizmente ainda não histericamente - e, quero crer, sobra-me tempo...

 

 
 
 
 
Por Aline Andra


 
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O terceiro elemento




BuildingDreamsblog.jpg



Ele chega indolente e sem luz. Começa, negligentemente, a desfazer o ninho, sonhado na justa medida para dois e feito de frágeis e pequenos detalhes.
Ele parte dissimulado e sem pouso. Exaustos e em silêncio, os dois apenas se olham, pois já não há mais nada por admitir e, laboriosamente, começam a recolher os pedaços espalhados do sonho, que de tantas falhas e cicatrizes, vai ficando cada vez menor.










Por Aline Andra



 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Despedida



 
 

Ontem, sob um céu quase abusado de tão azul, consolados por todo o caminho pelos flamboyants com suas  generosas  pencas de flores coloridíssimas, levamos nosso silencioso cachorrinho, nosso mais fiel amigo, que pacientemente também me deixou mimá-lo como se substituto de filho fosse, para finalmente descansar no lugar que mais amamos. Sem pompas e circunstâncias - como acreditamos que deveriam ser todos os finais - seu corpo continuará seu ciclo natural, alimentando outras criaturas vivas. Já a sua alma, espero que esteja novamente travessa e satisfeita.
Que eu tenha sabido retribuir tanto quanto o muito que dele recebi...
 

 
 
 
 
 
 
 

Por Aline Andra

 
 
 
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Faça um pedido!


 
 
 

Que nós possamos com a ajuda dos cinco sentidos que conhecemos e mais aqueles que estão além de nossa compreensão, perceber as possibilidades, fazer as melhores escolhas e construir um 2014 iluminado. Nem todos os dias serão felizes, disso já sabemos, mas que estejamos saudáveis, corajosos e que não esqueçamos que, enquanto estivermos por aqui, haverá sempre uma nova chance para reinventar a vida.
Que nossos desejos se realizem...
Um abraço sincero a todos!
 

 

 

 
Por Aline Andra

 


sábado, 10 de agosto de 2013

Saúde e sabedoria



 


Meu “filho” único e adotivo, um cãozinho poodle muito especial – como achamos que são todos os filhos – adoeceu. Com problemas renais, cardíaco e já idoso, necessitou de cuidados médicos e internação. Apesar do medo de perdê-lo ou vê-lo sofrer, tive a grata e preciosa experiência de conhecer pessoas também muito especiais: os Veterinários!
Entende-se que, de modo geral, quem convive e cuida de animais deve ter uma reserva extra de afeto e respeito, mas em meio a tantas histórias de decepções e desamparo na área da saúde – pública e particular – é sempre surpreendente encontrar profissionais que são tão competentes quanto amorosos e compassivos. Eu tive essa sorte e estou feliz tanto por receber de volta esta pequena e peluda criatura mais sadia e vivaz, quanto por ter recuperado minha fé nas infinitas possibilidades de descobertas e agradáveis surpresas que nós, humanos cuja credibilidade anda meio abalada, ainda somos capazes de proporcionar uns aos outros.
Para quem está no Rio de Janeiro, a sempre oportuna recomendação:

 Bichos&Caprichos
Rua: Lemos Cunha, 203/loja 103 – Icaraí, Niterói
Telefone: (21) 2611-3594

Nossa gratidão (minha e de meu marido) à Dra. Ana Paula Couceiro, que com tranquilidade e segurança nos deu todas as respostas e, com a rapidez que a situação exigia, nos orientou na direção certa.

 
Vet Help
Rua: Roberto Silveira, 196 – Icaraí, Niterói
Telefone: (21) 2611-0303

Nossa gratidão a toda a simpática e eficiente equipe. Ao Dr. Glauber Leal Martins, ainda tão jovem, mas com o limpo e sábio olhar de quem já nasceu com a alma amadurecida e consciente do seu papel no equilíbrio e manutenção do bem deste nosso pequeno mundo e neste tempo que nos cabe, nossa admiração incondicional.

 

 

 

Por Aline Andra
 
 
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Alma e antiguidades



Fonte: Google
 

Desejava, há algum tempo, começar uma pequena coleção de pequenos objetos. A repetição é proposital porque a pequenez fazia-se necessária. Pensava em algo que não ocupasse muito espaço, que se integrasse naturalmente à decoração de algum cantinho de minha casa e não exigisse grandes investimentos. Na verdade, a motivação estava mais relacionada ao prazer de “garimpar”, passatempo que adoro.
Locais de venda de antiguidades não faltam no Rio de Janeiro, dos despretensiosos aos mais sofisticados.  Eu prefiro os brechós e as pequenas feiras de antiguidades pontuais, onde podemos passear sem compromisso e totalmente à vontade, num delicioso exercício de observação daquele tumulto divertido, daquela mistura meio bagunçada e colorida onde, talvez, esteja escondido o “tesouro” que ainda vamos descobrir. Uma farra para os olhos e a imaginação!
De chaves antigas a móveis de estilo, tudo é possível. Perceber essa frágil  teia de histórias alheias requer cuidado e respeito.  É enriquecedor remexer em cestos e baús e encontrar, como já me aconteceu, um missal com capa de madrepérola e a foto de um jovem casal entre as folhas amarelecidas, um pedantif   de marcassita, um  livro de poesias com um dedicatória apaixonada, um lindo camafeu de marfim, um dedal muito antigo com detalhes em relevo, charmosas bolsinhas em malha de metal, espelhos  em molduras de prata, relógios de bolso, canetas tinteiro com nomes gravados, brinquedos, cartões postais  e tantas outras preciosidades.  Fragmentos do tempo...
Objetos valiosos ou não, isso deixa de ter importância. Fizeram parte da vida de alguém e passam a ser interessantes para mim, pois acho que todas as vidas são interessantes.
Finalmente, quase por acaso, comecei a colecionar antigos frascos de perfumes.
Um dos sentidos mais importantes, o olfato, marca e define uma  presença e uma personalidade ainda que superficialmente, claro. Às vezes até transforma um momento fugaz numa lembrança inesquecível. Além disso, essas pequenas “joias” são representações de uma época cuja beleza, riqueza de detalhes e delicadeza já não encontro mais.
Definitivamente, tenho uma alma vintage.
 
A primeira peça (5x3cm) da minha coleção e, acreditem, ainda conserva o maravilhoso aroma do perfume original ! 



 
 
 

Por Aline Andra
 
 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Rio de Janeiro está pegando fogo...

 
Ai, que calor! A sensação térmica parece ser de 50 graus à sombra. O pior é que não dá mais para desejar uma boa e saudável chuva, como em tempos idos. Lembram-se das tempestades de verão? Chegavam ao cair da tarde, lavando calçadas, árvores, o suor e a alma e iam embora tão repentinamente como vinham. Sem despedidas marcantes. Até porque era certa a volta no dia seguinte.

Agora, ela chega abusada e irreverente, provocando o caos e deixando marcas indeléveis em muitos.
Só nos resta esperar que o Sol tenha pena de nós.
 
 
 
 

Por Aline Andra

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A noite e a magia da lavanda

 
 

Quem não tem da infância, a lembrança de um cheiro de lavanda?
Sabonetes, colônias, sachets para perfumar roupas... Ela imperava. Antigamente, acreditava-se mais na eficácia dos aromas, dos chás e infusões, do poder curativo e energético das ervas de modo geral, mas acho que à medida que os quintais e/ou os valores simples foram desaparecendo, essa natural sabedoria, também. Lamento...
 
Para mim, a lavanda está associada a um sono tranquilo e sem pesadelos. Existem piores que aqueles, infantis, quando temores inexplicáveis e sensações estranhas e abissais povoam nossa imaginação?
Quando criança, durante algum tempo, fui sonâmbula. Lembro-me de minha mãe contar que depois de me seguir pela casa – fazendo louváveis esforços para não me acordar - eu costumava ir até minha penteadeira mexer nos objetos que lá ficavam. Abria o vidro da minha colônia preferida (Alfazema, da Phebo), perfumava-me e só então voltava para minha cama. Foi a partir dessa observação e do amor intuitivo maternal que passei a dormir em lençóis imaculadamente brancos (?!) e cheirando à lavanda e sol, depois de secarem no quarador do quintal. O mundo voltava a ter seus encantos...
 
Atualmente, estou tentando cultivá-las. Tem sido difícil. Planta rústica e arisca, cheia de independência. Mas tem valido a pena. Mesmo em pequenos vasos, seu perfume é invasor e envolvente. Principalmente nas madrugadas, quando me sento a seu lado, sozinha no meu jardim, para pensar na vida...
 
 
 
Pesquisei alguns dados interessantes sobre ela: popularmente chamada de lavanda, alfazema ou nardo, originária do Mediterrâneo. Os principais países produtores são a França, Itália e Inglaterra. O óleo essencial da lavanda (do latim lavare = lavar) já era utilizado pelos romanos para a lavagem de roupas, banhos, aromatização de ambientes e como produto terapêutico. Sua gama de propriedades é imensa: analgésico, antidepressivo, antisséptico, bactericida, descongestionante, relaxante e hipotensor.
 
Uma lenda cristã diz que a lavanda, originalmente, não tinha cheiro, mas desde que a Virgem Maria secou as fraldas do menino Jesus sobre as folhas da planta, ela ganhou um perfume celestial.
 
Na era vitoriana, as mulheres a usavam em travesseiros que cheiravam para se recuperarem dos desmaios causados pelos corpetes apertados.
 
Conta-se que na época da Peste os habitantes de Grasse (França) não foram atingidos pela doença devido ao costume de perfumar suas luvas de couro com lavanda.
 
Era também colocada nos beirais das janelas para evitar a entrada de escorpiões e outros insetos.
 
Lendas, curiosidades e propriedades à parte, a simples visão de um campo de lavandas é indescritível. Abaixo, algumas imagens. Podemos nos imaginar lá, sentindo o perfume inigualável, o vento, a chuva, o sol, a lua, o silêncio e a consciência de que vivemos num planeta criado à perfeição.
 
 
 
Fonte das imagens: Google
 
 
Por Aline Andra

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

No escurinho do cinema...

 

Gosto muito do cinema europeu. Sua aparente simplicidade e despretensão. Bem entendido, não tenho nada contra um bom filme recheado de efeitos especiais, arrasadoras cenas de ação, lutas coreografadas, superproduções mesmerizantes onde diretores e atores oscarizados e botoxizados vendem seu produto em meio a caras e bocas. Acho válido. Muitos ainda me desconcertam e emocionam. Muitos são realmente obras primas e outros tantos, inesquecíveis. Pensando bem, quem gosta mesmo de uma sessão pipoca, acaba tirando proveito de qualquer filme, mas ando meio avessa a excessos. E aí, uma produção europeia cumpre perfeitamente o seu papel. Histórias contadas com honestidade, diálogos interessantes, belas fotografias de lugares e pessoas reais com suas dores, amores, contradições e perplexidades. Às vezes, vão além do simples entretenimento, alcançando e iluminando lugares secretos dentro de nós. E é isso que importa.
 
Por Aline Andra 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Lá em Tão Tão Distante...

 
 

Não consigo pensar em pães caseiros, cheirosos e quentinhos sem lembrar-me de Rosemere. Querida amiga, amorosa mãe e esposa, Mere faz os melhores pães do mundo. De todos os jeitos, sabores e cores. É sempre um momento especial vê-la sovando a massa com mãos fortes e hábeis e aquele brilho nos olhos de quem sente imenso prazer em agradar família e amigos.
Surpreendente e sábia Mere que entendeu, há muito tempo, que ser feliz é ser mulher em sua essência. Sem complicações ou conflitos. Simples assim.
 
Por Aline Andra

À beira do fogão

 
 

Descobri-me cozinheira há poucos anos. Morando sozinha durante muito tempo, não existia desassossego gastronômico. Contentava-me com comidinhas instantâneas, práticas, de preferência prontas. Massas?! Conheço todas. Saladas?! Nada mais me surpreende.
Mas tudo muda e eis que me surgiu... Um Marido!!! Não um marido qualquer, senhoras e senhores, não, longe disso, mas um  que cresceu acostumado com comidas de “sustança”. Avaliei os prós e contras e, artesã que sou, aceitei o desafio. Arregacei as mangas e coloquei mãos à obra. Bem, o esforço tem sido grande. Ainda não sei se os eventuais sucessos devem-se à minha intuição e bom senso ou a um talento consistente. Devo confessar que tenho estudado muito. Livros e Blogs de culinária tem sido de muita ajuda. Conto, também, com o estímulo do marido que possui uma infatigável capacidade de considerar tudo que faço uma obra prima. E saibam, ele é sincero.
Consequências à parte – alguns “quilinhos” a mais -, o saldo tem sido positivo. Divirto-me a maior parte do tempo e aprecio a ideia de expressar sentimentos através de atos e não somente palavras.
Deixo aqui, um trecho do livro “Os passos perdidos”, do excelente escritor cubano Alejo Carpentier e a leveza (?!) de um delicioso vídeo de animação para alimentar a autoestima e o bem estar. Bon Appetit!
“O Sol, metido em cheio nas ruas, ricocheteando nos cristais, tecendo-se em fios inquietos sobre a água dos tanques, pareceu-me tão estranho, tão novo, que para colocar-me diante dele tive de comprar óculos escuros. Em seguida tratei de me dirigir ao bairro do casarão colonial, em cujos arredores devia haver lojas de quinquilharias e antiquários. Ao subir uma rua de calçadas estreitas detinha-me, às vezes, para contemplar os objetos expostos por pequenas casas comerciais, cujo arranjo evocava artesanatos de outros tempos: eram as letras floreadas do Tutilimundi, a Bota de Ouro, o Rei Midas e a Harpa Melodiosa, junto ao Planisfério pendurado num alfarrabista, que girava à mercê da brisa. Numa esquina, um homem abanava a chama de um fogareiro sobre o qual se assava um pernil de bezerro, cravado de alhos, cujas gorduras rebentavam em fumaça acre, sob uma orvalhada de orégano, limão e pimenta. Mais à frente ofereciam-se sangrias e carapinhadas, sobre as gotas de óleo caídas do pescado frito. De súbito, um calor de fogaças mornas, de massa recém-assada, brotou dos respiradouros de um porão, em cuja penumbra labutavam, cantando, vários homens, brancos da cabeça aos pés. Detive-me com deleitosa surpresa. Fazia muito tempo que esquecera essa presença da farinha nas manhãs, lá onde o pão, amassado não se sabia onde, trazido de noite em caminhões fechados, como matéria vergonhosa, tinha deixado de ser o pão que se parte com as mãos, o pão que o padre reparte após benzê-lo, o pão que deve ser tomado com gesto reverente antes de se partir sua casca sobre a grande tigela de sopa de alhos-porós ou de aspergi-lo com azeite e sal, para voltar a encontrar um sabor que, mais que sabor de pão com azeite e sal, é o grande sabor mediterrâneo que já levavam pegado à língua os companheiros de Ulisses.”







Por Aline Andra
 
  

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eles, os livros

 
 
 

Minha intimidade com os livros já vem de longa data. Desde o tempo, que então parecia passar vagarosamente, em que eu, menina tímida e introspectiva, preferia às brincadeiras infantis, desbravar e viver aventuras no nem tão grande quintal da casa de minha avó. Ficar sozinha, apreciando silenciosamente os movimentos da natureza, sempre foi um prazer e um conforto. Até que um dia, entrei no “quartinho de guardados” onde em meio às ferramentas de jardim, pneus, espelhos antigos, garrafas de vidro colorido e objetos desdenhados, descobri uma pilha de empoeirados livros.

Lembro-me ainda da sensação, talvez primeira, do mistério. Que vontade de aprender logo a ler! Quantas descobertas, quanto conhecimento apenas por saber decifrar e juntar aquelas letrinhas... Enquanto isso me contentava em cheirá-los, sentir sua maciez ou aspereza e olhar incansavelmente suas ilustrações.
Bem, o tempo passou, mas esse sentimento amoroso não. Muitos já foram lidos. E a cada novo  livro, a mesma emoção se instala. Quantas horas cativas, quanto daquilo que fui e agora sou foi moldado por esse íntimo diálogo... Sim, diálogo, porque autor e leitor tornam-se cúmplices nessa caminhada. Vidas e mundos que quando me tocam a alma, passam a fazer parte de mim para sempre.


 

 
 
 
 
Por Aline Andra