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sábado, 24 de janeiro de 2015

Escritores e Gênios



 Não posso deixar de compartilhar esta palestra de Elizabeth Gilbert, realizada no TED em 2009.
 Não acompanho sua trajetória como jornalista e escritora. Sequer li seu livro autobiográfico Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love: One woman’s search for everything across Italy, India e Indonesia)  –  lançado em 2006, cujo retorno foi imediato e estrondoso. Apenas assisti a adaptação da obra para o cinema, dirigida por Ryan Murphy em 2010, o que nem garante seu talento e credibilidade, pois sabemos que este tipo de filme, alavancado por atores famosos e um roteiro que, muitas vezes, se afasta quase completamente do texto original, pretende tão somente “pegar uma carona” no já garantido sucesso.  Até aí, nada me preparou para a pessoa carismática e inteligente que Elizabeth parece ser. Com ironia e propriedade, ela discorre sobre o doloroso processo criativo (qualquer que seja), a pressão e o medo do fracasso depois de um avassalador sucesso e a conexão do artista com o divino. Vale!

 
 




Por Aline Andra


 
 


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Se tudo der errado leia Clarice - José Eduardo Agualusa







Tenho medo de ligar a televisão, como quem entra no metrô à hora de ponta, e de que por descuido ou por maldade alguém me pise a inteligência: “desculpe, sim?!, foi sem querer”. Ligo o aparelho, encolhido no meu canto, fingindo que nem estou ali, mas se por acaso os meus olhos tropeçam nalgum sujeito com aspecto de bárbaro, saio logo.
A seguir fecho os olhos e sonho um peixe. Foi um velho pescador pernambucano quem me ensinou isto. Eu estava sentado nas areias de Itamaracá, com um bloco de papel nos joelhos, concluindo uma aquarela. Ele veio por trás e ficou um momento observando:
_ Por que faz isso? – perguntou. _O mar não cabe aí!
Sentou-se ao meu lado. Disse-me que às vezes, ao acordar, lhe doía, do lado esquerdo do peito, a humanidade. Caminhava então até à praia, estendia-se de costas na areia, e sonhava um peixe.
_ Foi Clarice, sabe? Ela me iniciou.
Na altura não compreendi a quem o velho se referia. Começou por sonhar peixes pequenos, muito rudimentares, só um veloz traço de prata, só uma ligeira vírgula refulgindo no ar, mas com o tempo, à medida que desenvolvia a técnica, passou a sonhar garoupas, meros, inclusive espadartes. A ambição dele era sonhar uma baleia.
Uma baleia azul.
_Esteja atento à cor das águas – preveniu-me. _Por exemplo, de manhã, bemcedinho, se o mar estiver liso e prateado, é bom para sonhar savelhas. O camarupim, que é um peixe nosso, grande, se sonha muito bem depois que chove, e os rios anoitecem o mar. Já os xaréus são melhor sonhados quando o mar azula.
E as sereias? Ele olhou-me atônito:
 _Sereias?! Servem para quê, as sereias? Sereias são bichos mal sonhados, como os ornitorrincos ou os generais. Você há de conseguir fazer melhor.
Venho tentando. Nunca soube o nome do pescador. Era um sujeito alto, aprumado como um poste, de olhos acesos e uma pele sadia, bem esticada sobre os ossos. Tinha uma voz tão clara e calorosa que, à noite, enquanto falava, era como se cuspisse pirilampos. Uma voz daquelas devia poder transmitir-se em testamento. A mim fazia-me lembrar a do Fernando Alves. Contava-se na ilha que o velho estivera três semanas perdido no mar. Salvara-se por milagre, porque ao décimo terceiro dia Nossa Senhora Aparecida lhe apareceu no saveiro, trazendo nas mãos um pernil de porco e uma garrafa de litro de Coca-Cola. Ele próprio me desmentiu o milagre, até um pouco irritado:
_Nossa Senhora Aparecida?! Qual Nossa Senhora, rapaz?! Quem me apareceu foi Clarice Lispector.
Em todas as estórias de pescadores há sempre exageros, por vezes até mentiras descaradas, ou não seriam estórias de pescadores. Neste ponto, porém, sou peremptório – uso esta palavra pela primeira vez na vida; não veem que reluz? – ele lia! Era um grande devoto de Clarice Lispector e Alberto Caeiro. Contou-me que Clarice apareceu-lhe de madrugada, trazendo nas mãos Uma Maçã no Escuro, e lhe leu o romance inteiro.
A seguir, depois que o achou mais recomposto, ensinou-o a sonhar peixes.
_Sonhar peixes faz bem à alma. Lembre-se que por cada homem mau no mundo há no mar mil peixes bons.
O meu pescador não tinha televisão. Às vezes acontecia demorar-se num bar, ou na praça (havia uma televisão na praça), e o fragor das guerras alheias roubava-lhe o sono. Ele sofria com os erros dos outros. Andava pela ilha com A Hora da Estrela debaixo do braço, tentando, sem sucesso, converter os demais. Só eu lhe dava atenção:
_Se nada mais der certo leia Clarice.
Uma tarde vi-o sonhar um golfinho.
_Foi o meu primeiro mamífero – disse-me depois, exausto pelo esforço –, para a semana vou tentar uma orca.
Nunca mais voltei a Itamaracá, nunca mais o vi, mas calculo que por esta altura ele já tenha conseguido sonhar a sua baleia azul. Já a deve ter lançado ao mar, cento e trinta toneladas de puro sonho, e o canto dela há de estar ressoando nas águas. Um dia as baleias virão para salvar os homens.


Extraído de Manual Prático de Levitação, Rio de Janeiro: Gryphus, 2005, p. 63-67.






SOBRE O AUTOR:

 
José Eduardo Agualusa é capaz de atingir profundezas da alma, não só com seu olhar perscrutador, mas com sua prosa plena de humor, imaginação e quase delicadeza – mesmo tratando de questões difíceis de abordar – de suas temáticas.
Escritor de raízes angolana, brasileira e portuguesa, nasceu em 1960, na cidade de Huambo, Angola. Estudou Agronomia e Silvicultura em Lisboa, mas envolveu-se com o jornalismo e, na década de 90, com a ficção.
É considerado um dos autores mais importantes da nova literatura africana, tanto no romance, como no conto e poesia. O que se pontua em sua obra, percebe-se logo, é a integração natural entre os países de língua portuguesa, através de uma postura de quem passeia confortavelmente pelas influências culturais de cada um deles.
  






Por Aline Andra




segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Seda - Alessandro Baricco





Já não me sinto tão à vontade para perder tempo lendo qualquer livro que encontro como acontecia antigamente. Naquele tempo, uma imensa curiosidade e o prazer quase compulsivo de ler me incitavam a aproveitar qualquer oportunidade, independente da qualidade.
Agora, naturalmente, tenho minhas referências e preferências, mas busco também a sedução. O texto tem que me conquistar logo às primeiras linhas. Não importa se foi escrito por autor consagrado, admirado e respeitado mesmo por mim. Tem que haver empatia, uma afinidade que brota espontaneamente.
Foi o que aconteceu com Seda (Companhia das Letras, 121 págs., 1995). Gostei de imediato do estilo narrativo desse autor italiano, até então desconhecido para mim. Ganhador de vários prêmios literários importantes e com obras publicadas desde 1991, Alessandro Baricco, que também é pianista por formação e estudou filosofia, já garantiu seu lugar como um dos bons escritores contemporâneos e, sobretudo, conquistou-me com uma história contada em frases contidas, concisas e com um ritmo e uma cadência quase musicais. Um texto irretocável por não ter excessos, com uma pontuação justificada e original e por estar completo em sua intenção de provocar sensações quase líricas e “girar em torno de si mesmo” como os casulos de seda que direcionavam a vida de Hervé Joncour, o protagonista, um pacato cidadão do séc. XIX.


Para ser mais preciso: Hervé Joncour comprava e vendia bichos-da-seda quando a essência dos bichos-da-seda consistia em serem eles minúsculos ovos, de cor amarela ou cinza, imóveis e aparentemente mortos. A palma de uma mão podia conter milhares deles.
“Isso é o que se chama ter uma fortuna na mão.”
No início de maio os ovos se abriam e liberavam uma larva que, depois de trinta dias de sôfrega alimentação à base de folhas de amoreira, fechava-se de novo num casulo, para dali sair de maneira definitiva duas semanas mais tarde, deixando atrás de si um patrimônio que em seda fazia mil metros de fio cru e em dinheiro uma bela soma de francos franceses: admitindo-se que tudo corresse conforme as regras e, como no caso de Hervé Joncour, numa região qualquer do sul da França.
Lavilledieu era o nome da cidade onde Hervé Joncour vivia.
Hélène, o nome da mulher dele.
Não tinham filhos. (págs. 8 e 9)


Hervé, que preferia observar a vida a vivê-la, deixou-se convencer por Baldabiou - este sim um empreendedor e idealista em todos os sentidos, que revelou à cidade os segredos da sericicultura e da fiação da seda - e partiu em longas viagens além do Mediterrâneo com o intuito de negociar a compra e o transporte dos ovos de bichos-da-seda. Sua vida transcorria próspera e ordenada até ser enviado para o Japão, um território isolado, perigoso e que dificultava o acesso de estrangeiros, “o fim do mundo”.


Baldabiou conhecia todas essas histórias. Conhecia sobretudo uma lenda que recorrentemente surgia nos relatos de quem lá estivera. Ela dizia que naquela ilha produziam a mais bela seda do mundo. E a produziam havia mais de mil anos, de acordo com ritos e segredos que atingiram uma exatidão mística. Baldabiou pensava que se tratava não de uma lenda, mas da verdade pura e simples. Uma vez tivera entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como ter entre os dedos o nada. Assim, quando tudo parecia ir para o inferno por causa daquela história da pebrina e dos ovos doentes, ele pensou:
- A ilha está cheia de bichos-da-seda. E uma ilha aonde em duzentos anos não chegou nenhum mercador chinês ou segurador inglês é uma ilha aonde jamais chegará doença alguma.
Não se limitou a pensar: disse-o a todos os produtores de seda de Lavilledieu, depois de convocá-los ao café de Verdun. Nenhum deles jamais ouvira falar do Japão.
-Devemos atravessar o mundo para comprar ovos como Deus manda num lugar onde, se vêem um estrangeiro, enforcam-no?
- Enforcavam-no – esclareceu Baldabiou.
Não sabiam o que pensar. Alguém expressou uma dúvida.
- Por alguma razão ninguém no mundo pensou em comprar ovos lá longe.
Baldabiou poderia blefar e lembrar que no resto do mundo não havia outro Baldabiou. Mas preferiu dizer as coisas como eram.
- Os japoneses se conformaram em vender a seda deles. Mas não os ovos. Mantêm-nos guardados. E quem tentar levá-los para fora da ilha cometerá um crime.
Os produtores de seda de Lavilledieu eram, alguns mais outros menos, cavalheiros, e jamais pensariam em infringir nenhuma lei no seu próprio país. A ideia de fazê-lo no outro lado do mundo, porém, pareceu-lhes razoavelmente sensata.
Era o ano de 1861. Flaubert escrevia Salammbô, a iluminação elétrica ainda era hipótese, e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia uma guerra cujo fim nunca veria. Os sericicultores de Lavilledieu se uniram em consórcio e coletaram a quantia, considerável, necessária para a expedição. A todos pareceu lógico confiá-la a Hervé Joncour. Quando Baldabiou lhe pediu que aceitasse, ele respondeu com uma pergunta.
- E onde se localiza, precisamente, esse Japão?
Sempre naquela direção. Até o fim do mundo.
Partiu em 6 de outubro. Sozinho. (págs. 23 a 25)


E, sozinho, amadureceu em uma história que se repetia sutilmente e com pequenas variações como um refrão, mas na verdade viveu a experiência de transmutar a realidade em misteriosas e desconhecidas sensações, na busca do que é invisível e na descoberta de uma paixão proibida.


À noite Hervé Joncour preparou a bagagem. Depois se deixou levar ao grande cômodo calçado de pedras, para o ritual do banho. Deitou-se, fechou os olhos e pensou no grande viveiro, louca prova de amor. Puseram-lhe um pano molhado sobre os olhos. Pela primeira vez. Instintivamente tentou retirá-lo, mas uma mão tomou a sua e a deteve. Não era a mão velha de uma velha.
Hervé Joncour sentiu a água escorrer sobre o corpo, primeiro nas pernas, depois pelos braços, e pelo peito. Água como óleo. E um silêncio estranho, ao redor. Sentiu a leveza de um véu de seda que descia sobre ele. E as mãos de uma mulher – de uma mulher – que o enxugavam acariciando sua pele, por toda parte: aquelas mãos e aquela seda tecida de nada. Não se mexeu, nem quando sentiu as mãos subirem das costas para o pescoço e os dedos – a seda e os dedos – subirem até seus lábios, e roçarem-nos, uma vez, lentamente, e desaparecerem.
Hervé Joncour sentiu ainda o véu de seda se erguer e se separar dele. A última coisa foi uma mão que abria a sua e punha algo na palma.
Esperou longamente, no silêncio, sem se mover. Depois, lentamente, retirou o pano molhado dos olhos. Já não havia quase luz, no cômodo. Não havia ninguém, ao redor. Levantou-se, apanhou a túnica que jazia dobrada no chão, colocou-a sobre os ombros, saiu do cômodo, atravessou a casa, chegou diante de sua esteira e se deitou. Pôs-se a observar a chama que tremia, diminuta, na lanterna. E, com cuidado, parou o Tempo, por todo o tempo que desejou.
Foi um nada, depois, abrir a mão e ver aquele papel. Pequeno. Poucos ideogramas desenhados um embaixo do outro. Tinta preta. (págs. 48 e 49)


Envolvente!

 

 

 

 

Por Aline Andra


 

domingo, 20 de julho de 2014

Memória de Livros - João Ubaldo Ribeiro






 Aracaju, a cidade onde nós morávamos no fim da década de 40, começo da de 50, era a orgulhosa capital de Sergipe, o menor Estado brasileiro (mais ou menos do tamanho da Suíça). Essa distinção, contudo, não lhe tirava o caráter de cidade pequena, provinciana e calma, à boca de um rio e a pouca distância de praias muito bonitas. Sabíamos do mundo pelo rádio, pelos cinejornais que acompanhavam todos os filmes e pelas revistas nacionais. A televisão era tida por muitos como mentira de viajantes, só alguns loucos andavam de avião, comprávamos galinhas vivas e verduras trazidas à nossa porta nas costas de mulas, tínhamos grandes quintais e jardins, meninos não discutiam com adultos, mulheres não usavam calças compridas nem dirigiam automóveis e vivíamos tão longe de tudo que se dizia que, quando o mundo acabasse, só íamos saber uns cinco dias depois.
Mas vivíamos bem. Morávamos sempre em casarões enormes, de grandes portas, varandas e tetos altíssimos, e meu pai, que sempre gostou das últimas novidades tecnológicas, trazia para casa tudo quanto era tipo de geringonça moderna que aparecia. Fomos a primeira família da vizinhança a ter uma geladeira e recebemos visitas para examinar o impressionante armário branco que esfriava tudo. Quando surgiram os primeiros discos long play, já tínhamos a vitrola apropriada e meu pai comprava montanhas de gravações dos clássicos, que ele próprio se recusava a ouvir, mas nos obrigava a escutar e comentar.
Nada, porém, era como os livros. Toda a família sempre foi obsedada por livros e às vezes ainda arma brigas ferozes por causa de livros, entre acusações mútuas de furto ou apropriação indébita. Meu avô furtava livros de meu pai, meu pai furtava livros de meu avô, eu furtava livros de meu pai e minha irmã até hoje furta livros de todos nós.  A maior casa onde moramos, mais ou menos a partir da época em que aprendi a ler, tinha uma sala reservada para a biblioteca e gabinete de meu pai, mas os livros não cabiam nela -- na verdade, mal cabiam na casa. E, embora os interesses básicos dele fossem Direito e História, os livros eram sobre todos os assuntos e de todos os tipos.  Até mesmo ciências ocultas, assunto que fascinava meu pai e fazia com que ele às vezes se trancasse na companhia de uns desenhos esotéricos, para depois sair e dirigir olhares magnéticos aos circunstantes, só que ninguém ligava e ele desistia temporariamente. Havia uns livros sobre hipnotismo e, depois de ler um deles, hipnotizei um peru que nos tinha sido dado para um Natal e que, como jamais ninguém lembrou de assá-lo, passou a residir no quintal e, não sei por quê, era conhecido como Lúcio.  Minha mãe se impressionou porque, assim que comecei meus passes hipnóticos, Lúcio estacou, pareceu engolir em seco e ficou paralisado, mas meu pai - talvez porque ele próprio nunca tenha conseguido hipnotizar nada, apesar de inúmeras tentativas - declarou que aquilo não tinha nada com hipnotismo, era porque Lúcio era na verdade uma perua e tinha pensado que eu era o peru.
Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto.  Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.
- D. Gilete - disse ele, apresentando-me a senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo -, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.
"Aplicar as regras", soube eu muito depois com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou burrice por parte do aluno. Felizmente D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.
- Esses daí agora não - disse ele. - Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são uma porcaria, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.
Duraram bem pouco, sim, porque de repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, frequentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis. Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa - e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
- Meu filho está doido - disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. - Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.
- Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.
- Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
- O Lello. - Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários.  Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação.
Sim, tínhamos muitas conversas sobre livros. Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos - a livre propriamente dita e a incerta. A compulsória variava conforme a disposição de meu pai.  Havia a leitura em voz alta de poemas, trechos de peças de teatro e discursos clássicos, em que nossa dicção e entonação eram invariavelmente descritas como o pior desgosto que ele tinha na vida. Líamos Homero, Camões, Horácio, Jorge de Lima, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha, dezenas de outros.  Muitas vezes não entendíamos nada do que líamos, mas gostávamos daquelas palavras sonoras, daqueles conflitos estranhos entre gente de nomes exóticos, e da expressão comovida de minha mãe, com pena de Antígona e torcendo por Heitor na Ilíada. Depois de cada leitura, meu pai fazia sua palestra de rotina sobre nossa ignorância e, andando para cima e para baixo de pijama na varanda, dava uma aula grandiloquente sobre o assunto da leitura, ou sobre o autor do texto, aula esta a que os vizinhos muitas vezes vinham assistir. Também tínhamos os resumos - escritos ou orais - das leituras, as cópias (começadas quando ele, com grande escândalo, descobriu que eu não entendia direito o ponto-e-vírgula e me obrigou a copiar sermões do Padre Antônio Vieira, para aprender a usar o ponto-e-vírgula) e os trechos a decorar. No que certamente é um mistério para os psicanalistas, até hoje não só os sermões de Vieira como muitos desses autores forçados pela goela abaixo estão entre minhas leituras favoritas. (Em compensação, continuo ruim de ponto-e-vírgula).
Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos.  Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:
- Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!
O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta; O Livro de San Michele, Crônica Escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O Crime do Padre Amaro - enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas - e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.
Na área proibida, não pode deixar de ser feita uma menção aos pais de meu pai, meus avós João e Amália. João era português, leitor anticlerical de Guerra Junqueiro e não levava o filho muito a sério intelectualmente, porque os livros que meu pai escrevia eram finos e não ficavam em pé sozinhos. "Isto é uma merda", dizia ele, sopesando com desdém uma das monografias jurídicas de meu pai. "Estas tripinhas que não se sustentam em pé não são livros, são uns folhetos". Já minha avó tinha mais respeito pela produção de meu pai, mas achava que, de tanto estudar altas ciências, ele havia ficado um pouco abobalhado, não entendia nada da vida. Isto foi muito bom para a expansão dos meus horizontes culturais, porque ela não só lia como deixava que eu lesse tudo o que ele não deixava, inclusive revistas policiais oficialmente proibidas para menores. Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai ficava preocupado.
- D. Amália - dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo -, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição.  A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado , cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.
- Senhor doutor - respondia minha avó -, sou avó deste menino e tua mãe. Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem. Levo o menino sem condição nenhuma e, se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes, que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor.
E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abestalhado para a vida, e meu avô, que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler - Amália tinha razão, se o menino queria ler que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que ficava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:
- Uma de cada?
- Uma de cada - confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não-proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós. - Mande levar. E agora aos livros!
Depois da banca, naturalmente, vinham os livros. Ela acompanhava certas coleções, histórias de "Raffles, Arsène Lupin", Ponson du Terrail, Sir Walter Scott, Edgar Wallace, Michel Zevaco, Emilio Salgari, os Dumas e mais uma porção de outros, em edições de sobrecapas extravagantemente coloridas que me deixavam quase sem fôlego. Na livraria, ela não só se servia dos últimos lançamentos de seus favoritos, como se dirigia imperiosamente à seção de literatura para jovens e escolhia livros para mim, geralmente sem ouvir minha opinião - e foi assim que li Karl May, Edgar Rice Burroughs, Robert Louis Stevenson, Swift e tantos mais, num sofá enorme, soterrado por revistas, livros e latas de docinhos e bolachinhas, sem querer fazer mais nada, absolutamente nada, neste mundo encantado. De vez em quando, minha avó e eu mantínhamos tertúlias literárias na sala, comentando nossos vilões favoritos e nosso herói predileto, o Conde de Monte Cristo - Edmond Dantès! - como dizia ela, fremindo num gesto dramático. E meu avô, bebendo a cerveja escondido lá dentro, dizia "ai, ai, esses dois se acham letrados, mas nunca leram o Guerra Junqueiro".
De volta à casa de meus pais, depois das férias, o problema das leituras compulsórias às vezes se agravava, porque meu pai, na certeza (embora nunca desse ousadia de me perguntar), de que minha avó me tinha dado para ler tudo o que ele proibia, entrava numa programação delirante, destinada a limpar os efeitos deletérios das revistas policiais.  Sei que parece mentira e não me aborreço com quem não acreditar (quem conheceu meu pai acredita), mas a verdade é que, aos doze anos, eu já tinha lido, com efeitos às vezes surpreendentes, a maior parte da obra traduzida de Shakespeare, O elogio da loucura, As décadas de Tito Lívio, D. Quixote (uma das ilustrações de Gustave Doré, mostrando monstros e personagens saindo dos livros de cavalaria do fidalgo, me fez mal, porque eu passei a ver as mesmas coisas saindo dos livros da casa), adaptações especiais do Fausto e da Divina Comédia, a Ilíada, a Odisséia, vários ensaios de Montaigne, Poe, Alexandre Herculano, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dickens, Dostoievski, Suetônio, os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e mais não sei quantos outros clássicos, muitos deles resumidos, discutidos ou simplesmente lembrados em conversas inflamadas, dos quais nunca me esqueço e a maior parte dos quais faz parte íntima de minha vida.
Fico pensando nisso e me pergunto: não estou imaginando coisas, tudo isso poderia ter realmente acontecido? Acho que sim, também joguei bola, tomei banho nu no rio, subi em árvores e acreditei em Papai Noel. Os livros eram uma brincadeira como outra qualquer, embora certamente a melhor de todas. Quando tenho saudades da infância, as saudades são daquele universo que nunca volta, dos meus olhos de criança vendo tanto que entonteciam, dos cheiros dos livros velhos, da navegação infinita pela palavra, de meu pai, de meus avós, do velho casarão mágico de Aracaju.

 
Texto extraído do livro "Um brasileiro em Berlim", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1995, pág. 137. Dele escreveu Jorge Amado:
"Disse acima que o leitor atravessa as crônicas de João Ubaldo com o sorriso nos lábios. Posso acrescentar que por vezes o faz com a emoção umedecendo os olhos. Neste "Um brasileiro em Berlim " as páginas sobre a infância e as leituras do menino João, na cidade de Aracaju, onde a família Ribeiro viveu alguns anos, são belas e comoventes. Conheci de perto e estimei o jurista Manoel Ribeiro, pai de João. Um homem extraordinário, um pai amantíssimo à sua maneira. Nesta  "Memória de Livros", Manoel Ribeiro, devorador de livros, admirador de clássicos, cidadão áspero e terno, ressurge inteiro, vivo, criando o filho para a liberdade e a indisciplina. Se João Ubaldo é hoje um dos escritores principais do Brasil - e da literatura contemporânea -, creio que ele o deve, sobretudo, ao pai que, tentando aparentemente contê-lo, lhe deu régua e compasso."




 

SOBRE O AUTOR:
 

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941 e faleceu há dois dias, em 18 de julho, aos 73 anos. Perdemos mais um grande escritor, um sedutor que com uma voz de barítono e uma jovialidade contagiante, fazia sua prosa de alta qualidade e conseguia cativar e quase paralisar o leitor, mesmo aquele desatento.
Lembro-me de um tempo em que comprava o Jornal “O Globo” aos domingos, principalmente por causa de suas temperadas crônicas, sempre capazes de provocar um momento enriquecedor no dia.
João Ubaldo começou sua carreira literária como um leitor bem (in)formado, o que já é um privilégio. Isso ele nos conta na crônica acima.
Nos anos 50, ele foi jornalista e editor de jornais e revistas culturais além de ativo participante do movimento estudantil. Apesar de nunca ter exercido a profissão, concluiu o curso de Direito.
Participou com seus contos e crônicas de diversas antologias até 1963, época em que publicou seu primeiro romance, Setembro não faz sentido.
Em 1965 - após voltar de seu exílio voluntário nos EUA, onde fez mestrado em Administração Pública e Ciências Políticas -, lecionou na Universidade Federal da Bahia por seis anos. Desistiu, então, da carreira acadêmica e retornou ao jornalismo.
Em 1971, o sensacional Sargento Getúlio foi lançado pela Editora Civilização Brasileira, alcançando grande reconhecimento e merecendo o Prêmio Jabuti, na categoria “Revelação de Autor”.
Enfim "revelado", ele nos presenteou com obras inesquecíveis. Talvez seus romances mais conhecidos sejam Viva o Povo Brasileiro, publicado pela Editora Alfaguara em 1984, uma saga de quatro séculos de história do país e com setecentas páginas marcadas com sua inegável veia cômica, já transformada em filme (do diretor Hermano Penna e protagonizado por Lima Duarte, nos anos 80) e em tema do samba-enredo da escola Império da Tijuca para o Carnaval de 1987 e A Casa dos Budas Ditosos, lançado em 1999 e escrito sob encomenda para a série Plenos Pecados da Editora Objetiva, que também detém enorme sucesso de vendas e foi transformado em peça teatral (com Fernanda Torres).
Muitas foram as premiações, homenagens e citações às obras de João Ubaldo, mas vale lembrar a sua posse na Academia Brasileira de Letras (em um tempo, creio, em que se prezava somente a qualidade) em 1993 e o Prêmio Camões, em 2008, considerado um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. 









Por Aline Andra


 


terça-feira, 1 de julho de 2014

O futebol - parte 2



 Esmalte sobre azulejo - Alfredo Volpi (1896-1988)
 
 
“O poder de irradiação do futebol é impensável sem uma fenomenologia da bola: esse objeto distinto de todos os outros - sem quinas, pontas, dorso ou face, igual a si mesmo em todas as direções de sua superfície -, que rola e quica como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum. A bola é redonda – não há como recuar diante da mais rotunda das obviedades. Ao contrário, é preciso redescobrir esse fato espantoso, que a distingue de todo o resto: “a esfera é [...] a forma primordial, [...] a menos ‘especificada’ de todas, semelhante a ela mesma em todas as direções, de sorte que, num movimento de rotação qualquer em torno do seu centro, todas as suas posições sucessivas podem ser sempre rigorosamente superpostas umas às outras”. Mas essa forma universal ganha uma concretude rasante quando convertida em objeto de jogo, feita de gomos de couro, bexiga ou borracha, cheia de forragem ou de ar, imitada num coco, numa laranja ou numa bola de meia. Assim ela é ao mesmo tempo geométrica e visceral, telúrica e aérea, pedestre e celeste, platônica e aristotélica, obra de engenharia e de bricolagem: perfeita em si mesma e sujeita a todas as apropriações (“pura ou degradada até a última baixeza”, como no verso de Manuel Bandeira sobre a mulher-estrela-da-manhã, passando, como se inatingível, pelas mãos e pelos pés de todos).”

 
“O simbolismo agonístico das práticas com bola, surgido nas mais remotas civilizações agrárias, aparece comumente ligado a ritos em que os movimentos da esfera são tidos como dotados da propriedade de reger o sol e a lua, dar-lhes forças, impedir ou produzir cataclismas, propiciar a fartura. Em contextos arcaicos, a bola tem o condão da “magia simpática”, fundado na sua semelhança com as luminárias celestes. Achados arqueológicos, indícios iconográficos e resíduos etimológicos apontam para essa conjugação de bola e movimentos astrais num arco amplo o bastante para ir do Oriente ao Ocidente, de chineses, japoneses, egípcios e babilônios a gauleses e bretões.”


“Em O pensamento selvagem, Claude Lévi-Strauss cita o caso surpreendente de indígenas da Nova Guiné que, tendo aprendido com ocidentais a jogar futebol, não o faziam para vencer mas para empatar, mesmo que às custas de jogar “tantas partidas quantas [...] necessárias, para que se equilibr[ass]em em exatamente as perdidas e ganhas” pelos dois lados. Nos termos do antropólogo, esses indígenas submetiam o jogo a uma outra lógica – a lógica do rito -, jogando uma espécie de “partida privilegiada” que visa produzir não a desigualdade, mas o equilíbrio entre os campos antagonistas. O exemplo diz de modo eloquente o quanto as práticas pré-modernas se distanciam disto que entendemos modernamente por jogo. E que, em sua inocência terrível, elas expõem de modo muito mais aberto o fato de que os destinos da bola conjuram e exconjuram a violência e a morte.”   

 
“A margem de narrativas e fabulações que resulta de tudo isso é enorme, independentemente da representação de qualquer coisa que não seja inerente às próprias circunstâncias da disputa. O mais simples toque, por exemplo, pode transpirar ingenuidade ou inteligência, ímpeto desbragado ou quintessenciada maturidade, fulguração ou obtusidade. A bola pode parecer um caroço de abacate ou um calombo, conforme o modo como é tocada, em certos momentos, ou uma esfera etérea que se arredonda quanto mais se desloca, em outros. Pairando sobre tudo, ainda, aquela nuvem trágica e extasiante que faz de cada jogador, jogo e time a sucessiva encarnação única e insubstituível de uma necessidade, o retorno implacável e a manifestação de um arquétipo, ao mesmo tempo em que a revelação de um destino que se decide em ato, acontecimento singular e irrepetível, ali, num tempo impalpável que se esvai entre os dedos.”

 
“Junto com a bola, o futebol faz rolar a Roda da Fortuna, a roleta que lança os jogadores num campo de provação que circula entre a promessa, a mediania, o carisma, o prodígio, o mito, a decadência, o malogro, a desgraça e o renascimento das cinzas.”

 
 
Veneno Remédio, o futebol e o Brasil
José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, São Paulo, 2008

 

 

 


Por Aline Andra  
 
 
 
 

domingo, 15 de junho de 2014

O futebol - parte 1

 Óleo sobre tela - André Lhote


“A palavra campo designa um terreno extenso e não acidentado, e, para além de sua acepção agrícola, o espaço capaz de tornar-se o teatro de um jogo de forças, sugerido pela palavra alemã Kampf, da mesma raiz, significando luta, e pela palavra campeão, o lutador. O campo está a um passo da arena e guerra. Mas uma arena que se presta mais à visibilização do combate, isto é, à sua espetacularização e sua simbolização, do que à sua realização literal, quando ele não se destina expressamente a fins agressivos e passa a decidir, num tira-teima ritual com o outro, sob o olhar de outros, quem detém, por um momento ritualizado, o domínio de uma modalidade. (...) É essencial entender também que, ao dar forma lúdica ao mito da concorrência universal, o futebol criou o campo simbólico onde essa concorrência muda de sentido – tanto socialmente, já que apropriada por agentes que não teriam oportunidade no campo da competição econômica (operários ingleses ou brasileiros pobres, por exemplos), quanto simbolicamente, já que a concorrência se dá em código corporal e não verbal, irradiante de sentidos não determinados, desfrutando de um estatuto correspondente ao da autonomia da obra de arte.” (...) De qualquer modo, dizia Pasolini, o delírio do gol é puramente poético, chegue-se a ele por uma via ou por outra, e, como tal, é o momento e o lugar em que a diferença entre prosa e poesia se desfaz, já que ‘todo gol é sempre uma invenção, é sempre uma subversão do código: todo gol é inexorabilidade, fulguração, estupor, irreversibilidade”.



“O goleiro é sabidamente um ser de exceção, e, nos momentos cruciais, um solitário. Como os indivíduos sagrados e malditos, ele pode o que os outros não podem (tocar a bola com as mãos) e não pode o que os outros podem (atravessar todo o campo e consumar o desejo maior do jogo, o gol). Se a impossibilidade dos outros é ditada, no entanto, pela regra do jogo, a do goleiro é imposta pelo peso de um tabu, que veio caindo sintomaticamente, como sabemos. De todo modo, ele não pode abandonar por completo o gol porque essa é a zona interditada por cuja virgindade ele é o responsável. A virgindade do gol é um tabu no sentido preciso da expressão (que tem sua origem na esfera mágico-religiosa): espaço consagrado simbolicamente, que não deve ser profanado. Tradicionalmente, o goleiro participava, mais que nenhum outro jogador, do destino terrível de todos aqueles que são a representação encarnada do tabu, e a própria metonímia da virgindade sagrada posta no limiar da profanação. No futebol, onde o tabu duplicado no espelho do zero a zero inicial quer ser violado pela confrontação dos contrários, o goleiro figurava como uma espécie de vestal posta a prêmio, virgem guardiã do fogo sagrado cujo poder participa todo o tempo da ameaça de imolação.”


“A ‘lógica dialética’, no futebol, pede a prosa consistente que eleva o tecido do jogo para além do discurso trivial, apático ou protocolar. Como já foi dito, a prosa do futebol não exclui necessariamente a poesia, que, ao contrário, precisa daquela para se realizar. Quando isso acontece (como no quarto gol da seleção brasileira na final contra a Itália, da Copa de 1970, em que a bola vem bailando desde a própria defesa numa sucessão de passes e dribles, gratuitos e eficazes, de Clodoaldo até o passe de Pelé no vazio para o chute inapelável de Carlos Alberto, depois da bola levemente levantada ao acaso pelo próprio ‘Sobrenatural de Almeida’ – em forma de ‘morrinho’), atingimos aquele ponto só formulável em termos como os de Fernando Pessoa, ao fazer o elogio da capacidade superior que a prosa plena teria, de conter em seu corpo a própria poesia e todas as artes: “Há prosa que dança, que canta, que se declama a si mesma. Há ritmos verbais que são bailados, em que a ideia se desnuda sinuosamente, numa sensualidade translúcida e perfeita’.”




Veneno Remédio – O futebol e o Brasil
José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, São Paulo, 2008





 




Por Aline Andra

 


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sobre Gabriel García Márquez (1927-2014)






Já doente há bastante tempo e sem conseguir “desembrulhar suas memórias”, ele não mais escrevia e vários foram os boatos, mas hoje foi confirmada a morte, aos 87 anos, desse escritor que se fez presente de forma avassaladora na vida de muitos.
Não creio que tenha existido na literatura latino-americana outro artesão da palavra tão criativo e tão influente. Na minha trajetória como leitora, ele foi uma maravilhosa descoberta. Suas histórias fantásticas me ajudaram a entender que a realidade tem muitas facetas e pode sim ser percebida e vivida diferentemente e sem prejuízos por cada pessoa que queira investir um tanto de imaginação e delicadeza.
Nem sei mais quantas vezes já reli sua obra, mas tenho certeza de que o mistério e o encantamento que sinto serão  sempre renovados. Talvez não por acaso ele tenha desejado, antes de ser  escritor, ser mágico.
Que o genial Gabo esteja em paz.


"se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos."
Em: O amor nos tempos do cólera


 


 


Por Aline Andra




quinta-feira, 27 de março de 2014

A menina quebrada - Eliane Brum





Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina... A menina... Quebrou”. 

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina... A menina...” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio a tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou...” Catarina repetia. “A menina... quebrou.”

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam. 

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada. 

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará. 

Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes, você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso. 

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”. 

Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina? 

Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina... quebrou”. Ou: “Eu... quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”.








SOBRE A AUTORA:


Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Já ganhou mais de quarenta prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
Gaúcha, formou-se em Jornalismo pela PUC e logo começou a trabalhar no jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Lá ficou por onze anos até ser convidada pela revista Época, em São Paulo, para ser repórter especial e onde está até hoje.
Em sua trajetória pessoal, ela optou por escrever sobre os “desacontecimentos”. Ao que não é entendido como notícia, ou seja, fazer jornalismo sobre a vida comum, tão extraordinária quando valorizada por um olhar atento.



 




 



 

 

Por Aline Andra