Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A chave de casa - Tatiana Salem Levy




 


Li, com algum atraso, o romance (Ed. Record, 2007, 208págs.) desta autora que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2008, na categoria de autor estreante. Gostei muito.
Tatiana surpreende logo às primeiras páginas, não só por não se ater à segurança das fórmulas simples da escrita linear e cômoda, como também por seu estilo contundente e quase desconcertante. O gênero utilizado por ela, a autoficção, apaga propositalmente os limites entre o autor, o narrador e a personagem num jogo estimulante que, obrigatoriamente, inclui um leitor que precisa estar atento. É difícil ficar indiferente às possíveis semelhanças entre a escritora e a personagem embora ela tenha escrito: “Conto (crio) essa história para dar sentido à imobilidade”.
Contada num tom intimista e confessional, toda a narrativa tem raízes em conflitos pessoais e nas lembranças (memória) da família. O avô, judeu imigrante que chegou ao Brasil ainda jovem, deixando pais, irmãos e um amor mal resolvido na Turquia; as experiências dolorosas dos pais durante a ditadura militar e a necessidade do exílio em Portugal; o sofrimento pela morte da mãe, que continua influenciando seus pensamentos e ações com constantes interferências que interrompem o texto em vários momentos; a relação obsessiva com um homem dominador e seus sentimentos de inadequação e inconsistência.
Através destas quase “cenas” que se misturam, interagem e se completam no espaço e no tempo, a personagem resolve encontrar sua identidade cultural, uma transformação e um sentido para sua vida quando seu avô lhe entrega a chave da casa de Esmirna, que deixou para trás há tantos anos e a incita a fazer esta viagem para o desconhecido e o inesperado. Viagem que passa a ser também do leitor.
 
(...)
"Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe. Meu corpo já não suporta tanto peso: tornei-me um casulo pétreo. Tenho o rosto abatido, olheiras muito mais velhas do que eu. Minhas bochechas pendem, ouvindo o chamado da terra. Meus dentes mal conseguem mastigar. Sinto um incômodo abissal, como se a gravidade agisse com mais intensidade sobre mim, puxando duas vezes meu corpo para baixo.
Não tenho a mais ínfima ideia do que me aguarda nesse caminho que escolhi. Da mesma forma, não sei se faço a coisa certa. Muito menos se existe alguma lógica, alguma explicação admissível para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se não os esqueci perdidos por aí, em algum lugar ignoto.
Sem me levantar, pego a caixinha na mesa-de-cabeceira. Dentro dela, em meio a pó, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu avô. Tome, ele disse, essa é a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o com expressão de desentendimento. Agora, deitada na cama com a chave nas mãos, sozinha, continuo sem entender. E o que vou fazer com ela? Você é quem sabe, ele respondeu, como se não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, não fizeram.
E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se não quiser passá-la adiante.
(...)
Não faço outra coisa senão olhar, tocar, observar a chave. Conheço seus detalhes de cor, o tamanho preciso de suas curvas e de sua argola, seu peso, sua cor gasta. Uma chave desse tamanho não deve abrir porta alguma. A essa altura já deveriam por certo ter mudado, se não a porta, certamente a fechadura. Seria um disparate acreditar que tanto tempo depois a chave da casa permaneceria a mesma. Tenho certeza de que até meu avô é consciente disso, mas também imagino que deva ter uma curiosidade enorme de saber se ainda está lá o que deixou para trás. Que coisa estranha, que coisa esquisita deve ser: largar o país, a língua, abandonar a família em direção a algo completamente novo e, sobretudo, incerto.
Ele me contou que o navio onde viajou era descomunal, seu primeiro e único navio. A embarcação estava abarrotada de pessoas, todas com a mesma esperança que ele: conseguir uma vida melhor em país diferente. Dos irmãos, foi o primeiro a vir, apenas duas malas na mão e alguns contatos no Brasil. Não mais do que vinte anos quando deixou a Turquia. Tempos depois o irmão mais novo se juntaria a ele. A irmã gêmea faleceria de tuberculose. O irmão mais velho casaria e continuaria em Esmirna. A mãe, ele só reencontraria longos anos mais tarde, quando, viúva, decidiria se mudar para o Brasil.
Quantas vezes não ouvi essa mesma história? A dor de nunca mais ter visto o pai nem a irmã, de nunca mais ter pisado na terra que primeiro fora sua. A dor de só ter trazido a mãe a tempo de perdê-la. De ter visto tanta miséria no navio, tanta miséria na terra que deixara. Quantas vezes?
E agora o que ele quer? Que eu vá atrás da sua história, recuperar o seu passado? Por que essa chave, essa missão descabida?”

 



Por Aline Andra
 
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O adeus - Rubem Braga



The Embrace - Gustav Klimt 


No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.
Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.
Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado. Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação. E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.


 

SOBRE O AUTOR:
 

Rubem Braga é considerado um dos melhores e mais populares cronistas brasileiros, gênero injustamente repudiado por alguns.
Nasceu em 12 de janeiro de 1913 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, porém, viveu no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo. Iniciou-se no jornalismo ainda estudante, escrevendo uma crônica diária no jornal “Diário da Tarde”. Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão e continuou trabalhando como repórter. Participou da cobertura da Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo, na qual chegou a ser preso. Durante a 2ª Guerra Mundial, ele foi correspondente de guerra na Itália junto à F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira). Fez diversas viagens ao exterior, onde desempenhou função diplomática em Rabat, a capital do Marrocos. Após seu regresso, estabeleceu-se definitivamente no Rio de Janeiro, cujos costumes ele eternizou em muitos dos seus textos com sua linguagem coloquial e temática simples.
De temperamento introspectivo e solitário, sua marca registrada é, segundo o crítico Afrânio Coutinho, a “crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados da alma, pelas pessoas, pela natureza”.
Em 1968, com Fernando Sabino e Otto Lara Resende, ele fundou a Editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores como Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Jorge Luiz Borges.
Aos 77 anos, em 17 de dezembro de 1990, com quinze mil crônicas escritas em mais de 62 anos de jornalismo, Rubem Braga faleceu sozinho como desejara (em consequência de um tumor na laringe que ele preferiu não operar nem tratar quimicamente), dois dias depois de reunir os amigos para uma despedida em sua casa.






 


Fonte da imagem: Google
Fontes da pesquisa: http://www.releituras.com/rubembraga_bio.asp
                                    http://pt.wikipedia.org/wiki/Rubem_Braga




 

 

 

Por Aline Andra





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Preconceituosa literatura brasileira



Foto de Joel Robison
 
 
Divulgada este ano, a pesquisa demonstrada neste infográfico sobre um total de 258 obras, correspondente à soma dos romances brasileiros do período entre 1990 e 2004, publicados pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco   – responsáveis pela grande maioria dos livros vendidos/lidos no país - nos revela alguns dados preocupantes, quase uma denúncia para quem pensava que nossa  produção  literária contemporânea  já  expressava sem disfarces a nossa  realidade. Afinal, quão frágeis e superficiais parecem ser nossos posicionamentos em relação ao respeito pela multiplicidade cultural brasileira frente a um padrão ainda tão limitado e preconceituoso...


 

 
 
 
 
 
 
 
 

Fonte da pesquisa: http://pontoeletronico.me
 

 

 

 
Por Aline Andra
 
 

 
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A responsabilidade do escritor




 
 

Um trecho de uma palestra de Neil Gaiman, escritor inglês, sobre a importância das bibliotecas e sobre a necessidade de preservação do hábito da leitura como instrumento para um futuro melhor.
 


"Eu acho que nós temos responsabilidades para com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos nos quais aquelas crianças vão se transformar, com o mundo aonde eles vão se encontrar habitando. Todos nós – como leitores, como escritores, como cidadãos – têm obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.
Acredito que temos a obrigação de ler por prazer, em privado e em lugares públicos. Se lermos por prazer, se os outros nos veem ler, então nós aprendemos, nós exercitamos a nossa imaginação. Nós mostramos aos outros que a leitura é uma coisa boa.
Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de incentivar outras pessoas a usarem as bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza as bibliotecas, então você desvaloriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.
Temos a obrigação de ler em voz alta para os nossos filhos. De ler para eles coisas que eles gostam. De ler para eles histórias das quais já estamos cansados. De fazer as vozes para tornar interessante, e não de parar de ler para eles apenas porque eles aprendem a ler para si mesmos. Use o tempo de leitura em voz alta como um momento de ligação, como o tempo em que não há telefones sendo verificados, em que as distrações do mundo são postas de lado.
Temos a obrigação de usar a língua. Para nos empurrar: para descobrir o que as palavras significam e como implantá-las, para nos comunicarmos de forma clara, e dizer o que queremos dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta, que deve ser respeitada, mas devemos usá-lo como uma coisa viva, que flui, que empresta palavras, que permite aos significados e às pronúncias mudar com o tempo.
Nós, escritores – e, especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importante quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – a entender que verdade não está no que acontece, mas o que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal de contas. Temos a obrigação de não entediar os nossos leitores, mas fazê-los precisarem virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é um conto cuja leitura não pode ser interrompida. E enquanto dizemos aos nossos leitores coisas verdadeiras e damos a eles armas e armadura e passagem para qualquer sabedoria adquirida a partir de nossa curta estadia neste mundo verde, temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens morais pré-digeridas goela abaixo dos nossos leitores, como aves adultas que alimentam seus bebês com larvas pré-mastigadas, e nós temos a obrigação de nunca, jamais, em hipótese alguma, escrever alguma coisa para as crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.”
 
Texto original e na íntegra, aqui .
 
 
 
"Porque tudo muda quando lemos." (Neil Gaiman)
 
 
 
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 
 

sábado, 28 de setembro de 2013

O jardineiro que tinha fé - Clarissa Pinkola Estés






"A semente nova tem fé.
Ela se enraíza mais fundo nos lugares que estão mais vazios."

 
Descobri essa pequena obra-prima (Ed. Rocco, 92 págs.) em uma das estantes mais escondidas e de difícil acesso da biblioteca que frequento. E foi grande a minha surpresa! De Clarissa Pinkola Estés, só conhecia Mulheres que correm com os lobos (Ed. Rocco, 627 págs.), um livro espantoso e enriquecedor que revela uma psicologia feminina em seu estado mais puro, demonstrando através de mitos, contos de fadas e lendas do folclore, como se ligar novamente ao arquétipo da Mulher Selvagem, nome dado aos instintos naturais que foram, ao longo do tempo, domesticados e relegados às regiões mais pobres da psique.
A autora é poeta premiada, analista junguiana conceituada e como cantadora (contadora de velhas histórias) dirige o C.P. Estés Guadalupe Foundation, uma organização de direitos humanos que tem como uma das missões a transmissão de histórias reconfortantes, via rádio de ondas curtas, para lugares em conflito em todo o mundo.
É através deste dom, experiência profissional e de suas lembranças de infância que ela nos presenteia com um livro autobiográfico aparentemente, mas só aparentemente, simples e singelo. Na verdade, ela desnuda sua alma com sua narrativa  repleta de símbolos e significados que nos atingem em cheio.
Ainda criança, Clarissa foi acolhida e adotada por uma família de origem húngara. De pessoas refugiadas e machucadas em todos os sentidos pela Segunda Guerra Mundial, que chegaram ao norte rural dos Estados Unidos no final dos anos 40 e início dos anos 50, ela recebeu as primeiras lições de vida:
 
"Das dezenas de parentes refugiados que me criaram, aprendi das entranhas para fora, sobre a alma e a psique – seus ferimentos, seu luto e sua cura final. Como a única criança viva na família naquela época, aprendi não só sobre os aspectos mais sombrios e de maior capacidade de recuperação na vida, mas também sobre a proximidade constante da morte, em uma profundidade e em formas geralmente reservadas aos mais velhos."
 
E foi com os mais velhos que ela também aprendeu a antiga tradição denominada "fazer-história", uma prática de criar contos, poemas e outras obras, estimulada e transmitida de geração para geração.
Entre os "bobos dançarinos, as megeras sábias, os sábios resmungões e os quase santos" que compunham o grupo idoso da família, o tio Zovár ocupava um lugar de destaque. Depois de sobreviver aos horrores dos campos de trabalhos forçados, este camponês solitário e rústico, que amava profundamente a natureza, tentava sobreviver à dor das lembranças da guerra através das conversas, caminhadas, histórias e lágrimas derramadas na companhia dessa criança que também estava se reencontrando e descobrindo a força de regeneração da terra e da vida.
 
"Enquanto caminhávamos, titio matutava: 'Já ouvi pessoas perguntando onde fica o jardim do Éden. Ora! Qualquer lugar que se pise nesta terra é o jardim do Éden. Toda esta terra, por baixo dos trilhos de trens e das rodovias, da sua roupagem gasta, do seu entulho, de tudo isso, é o jardim de Deus – ainda com o frescor do dia em que foi criado.
É verdade que em muitos lugares o Éden está enterrado e esquecido, mas o jardim pode ser restaurado. Onde quer que haja terra sem uso, mal utilizada ou exausta, o Éden ainda está bem ali embaixo.'
Foi assim que aprendi que esta terra, da qual dependíamos para nossa alimentação, nosso ganha-pão, nosso descanso, para a oportunidade de ver a beleza, deveria ser tratada da mesma maneira que esperaríamos tratar os outros e a nós mesmos. O que quer que seja que aconteça a este campo, de algum modo, também acontece a nós."
 
Em uma época de sustos, perdas e lutos pessoais – e este momento chega para todos porque o ciclo da vida é permanente e inegociável – eu creio que, depois de ler este belo livro, soube aproveitar a oportunidade para lembrar de minhas próprias histórias e daquelas vividas por todos da minha família que já se foram. Histórias que me foram contadas e recontadas por eles e que, preservadas na minha memória e cuidadas com carinho e respeito, não só provam e resgatam o tempo de suas existências como confirmam, irrefutavelmente, a mim mesma tal como sou.
Sim, a semente tem fé porque acredita e busca os campos vazios e à espera para serem transformados novamente em jardins do Éden, mas também acaba descobrindo lugares escondidos e doloridos em nós para ressemear. Basta que estejamos com o coração aberto e o meu, felizmente, estava.
Recomendadíssimo!
 
 
 
 
Por Aline Andra

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A moça tecelã - Marina Colasanti

 
 
Ilustração: Bordado das irmãs Dumont 
 
 
 Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio do ponto dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura acordou e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

(Extraído de "Doze reis e a moça do labirinto do vento" - Global Editora, Rio de Janeiro, 2000)



 
 
SOBRE A AUTORA:
 
 Marina Colasanti (Sant’Anna) nasceu em 26 de setembro de 1937 em Asmara (Eritréia), Etiópia, então colônia italiana. Em seguida viveu alguns anos na Itália e, em 1948, chegou ao Brasil com sua família e se radicou no Rio de Janeiro, onde reside até hoje.
Formada em Belas-Artes (é ela quem ilustra a maioria de seus livros), dedicou-se intensamente à pintura e a carreira jornalística durante muitos anos, desenvolvendo as atividades de cronista, colunista, ilustradora e editora em vários jornais e revistas.
Em 1968, foi lançado seu primeiro livro “Eu sozinha”. Desde então, publicou mais de trinta obras entre contos, crônicas, ensaios, poemas e histórias infanto-juvenis. As questões femininas, o amor, a arte e os problemas sociais são temas constantes em sua obra e sua prosa-poética seduz e interage com nosso inconsciente quando traz à tona, muitas vezes, a atmosfera atemporal dos contos de fada com um olhar sutil e delicado.
Uma das mais premiadas escritoras ítalo-brasileiras, Marina também é tradutora do inglês, francês e italiano. Atualmente, colabora em revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras por todo o país.
Como se não bastasse, ainda é casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, formando uma das mais respeitadas parcerias do mundo literário.
 
 
 
 
Fonte das imagens: Google
                                        www.agenciariff.com.br
 
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 
 
 

domingo, 4 de agosto de 2013

A luz é como a água - Gabriel García Márquez


 
 
 
 
No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.
— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.
— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.
— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.
Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.
— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.
No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.
— Parabéns — disse o pai. — E agora?
— Agora, nada – disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.
Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.
Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.
— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.
E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.
— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter, além disso, equipamento de mergulho.
— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.
— Não – disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.
— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.
No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.
Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.
O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.
— Deus te ouça — respondeu a mãe.
Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.
Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que se agitava com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dente de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.
No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo em que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.
 
Dezembro de 1978.



 
 SOBRE O AUTOR:

A literatura latino-americana conheceu um processo de crescente reconhecimento internacional a partir da segunda metade do século XX. Gabriel García Márquez, com certeza, foi um dos responsáveis por esta mudança que se constituiu afinal numa "nova" vanguarda literária, na qual figuraram outros autores de primeiro quilate como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes.
Colombiano da aldeia de Aracataca, na costa caribenha, nasceu em 6 de março de 1928. Gabo, como era chamado por amigos e parentes desde a infância, interessou-se pelo mundo da fantasia, pois foi criado por seu avô, veterano da guerra civil, que narrava-lhe suas aventuras militares e pela avó, que relatava-lhe fábulas e lendas que transmitiam sua visão supersticiosa e mágica da realidade.
Encontra-se aí o cerne e o berço de sua escrita “simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, sem dúvida, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários que bem podem estar na origem de uma nova mitologia literária”.
A este estilo, deu-se o nome de Realismo Fantástico ou Realismo Mágico. Apropriado nos contos e romances onde o verossímil se nivela ao inverossímil numa completa coerência narrativa, mas acho que não se pode classificar uma obra tão extensa e diversificada sem incorrer no erro da simplificação que só desmerece esse que é um dos autores mais importantes e premiados do mundo, inclusive com o Prêmio Nobel de Literatura de 1982.
Sua ligação com seu tempo e com sua identidade latino-americana fez com que ele não se rendesse somente às obras ficcionais. Consagrou-se na carreira jornalística ao ingressar inicialmente na redação de “El Espectador”, onde se tornou o primeiro crítico de cinema do jornalismo colombiano e depois um brilhante cronista, repórter e roteirista de cinema. Foi um ativista político e teve participação significativa na história de seu país e na revolução cubana, de quem se tornou o principal defensor intelectual.
Viveu na Venezuela, França, Estados Unidos e, finalmente, México, já casado e com dois filhos.
Em 1967, depois de publicar vários contos e seu primeiro livro de ficção “Ninguém escreve ao coronel”, isolou-se durante dezoito meses (escrevendo diariamente durante mais de oito horas) para se dedicar a um projeto que cultivou em sua mente durante mais de dez anos: o belíssimo “Cem anos de solidão”.
Para mim, lê-lo foi uma descoberta imensurável. Deslumbrei-me com o ambiente mágico da aldeia de Macondo e com seus personagens desconcertantes. A partir daí, nada de sua obra me escapou e apreciá-la foi continuamente uma inspiração e uma provocação aos sentidos. Penso mesmo que sua prosa é de tal delicadeza e sensibilidade que devemos relê-la à medida que amadurecemos. Vamos desvendando-a aos poucos. Como a poesia.
Gabriel García Márquez ainda escrevia até 2009, quando circulou a notícia de que sofria de leve demência e consequente perda da memória, o que o forçou a se aposentar. Após isso, várias notas sobre sua morte e até uma “Carta de despedida” foram divulgadas através dos veículos de comunicação, todas desmentidas pela família. Ainda não encontrei alguma informação realmente confirmada e prefiro assim. Lembro-me de ter lido, em alguma ocasião, que quando o amigo Carlos Fuentes deu-lhe a notícia da morte de Julio Cortázar, também um amigo e fabuloso escritor, García Márquez disse: “Não acredite em tudo que lê nos jornais”.
Então, seguindo a mesma linha de pensamento, creio que está tudo resolvido. Nosso Gabo não morreu nem morrerá jamais. Ficará “encantado”.
 
 
 
Fonte das imagens: Google
 
 
 
Por Aline Andra
 


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A morte do gourmet - Muriel Barbery

 
 



Fiquei fã desta jovem escritora e filósofa, consagrada desde que seu livro “A elegância do ouriço” (Companhia das Letras, 2008 – 352 págs.), tornou-se um enorme sucesso. Tenho muita cautela com best-sellers. Desconfio bastante de uma classificação tão genérica e manipuladora que nivela, por exemplo, o fantástico “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez que é no mínimo uma obra prima e o vulgar “50 tons de cinza” de E. L. James que é no máximo uma obra de mau gosto.
Sendo assim, resolvi conhecer Muriel Barbery através de seu primeiro romance “A morte do gourmet” (Companhia das Letras, 2000 – 124 págs.) e gostei tanto que o reli. Sentia que muito me escapara na primeira “degustação”, pois é uma história para ser imaginada e assimilada por todos os sentidos, um belo relato dos prazeres sensoriais (mas não somente) da boa mesa.
Pierre Arthens, o gourmet em questão, é um homem de temperamento complexo e instável, que foi guiado por quase toda a vida pela arrogância, egoísmo e volúpia que o tornaram tão temido quanto respeitado. Brilhante crítico gastronômico, famoso no mundo inteiro, aprecia e usufrui do poder de reinar nesse meio exigente e requintado, conferindo ou destruindo a excelência e a reputação dos maiores chefs da haute cuisine da França.
Com poucas horas de vida, na solidão de seu quarto, ciente do ressentimento que causou a tantas pessoas e consciente da sua indiferença, só lhe resta buscar na memória, revivendo momentos que, desde a infância, considera preciosos, aquela lembrança especial e mais importante de um sabor que o tenha marcado profundamente.
 
“Agarrei a eternidade na casca de minhas palavras e amanhã vou morrer. Vou morrer em quarenta e oito horas – a não ser que esteja morrendo há sessenta e oito anos, e que só hoje tenha me dignado notar. Seja como for, a sentença de Chabrot, o médico e amigo, chegou ontem: “Meu caro, restam-lhe quarenta e oito horas!”. Que ironia! Depois de decênios de comilança, de torrentes de vinho, bebidas alcoólicas de todo tipo, depois de uma vida na manteiga, no creme, no molho, na fritura, no excesso a toda hora sabiamente orquestrado, minuciosamente paparicado, meus mais fiéis lugares-tenentes, o Sr. Fígado e seu acólito, o Estômago, portam-se maravilhosamente bem e é meu coração que me abandona. Morro de insuficiência cardíaca. Que amargura também! Recriminei tanto os outros por não o terem em sua cozinha, em sua arte, que nunca pensei que talvez fosse a mim que ele fizesse falta, esse coração que me trai tão brutalmente, com um desprezo mal disfarçado, tal a rapidez com que se afiou o cutelo...
Vou morrer, mas não tem importância. Desde ontem, desde Chabrot, só uma coisa importa. Vou morrer e não consigo me lembrar de um sabor que trota em meu coração. Sei que esse sabor é a verdade primeira e última de toda a minha vida, que ele detém a chave de um coração que desde então silenciei. Sei que é um sabor de infância, ou de adolescência, uma iguaria original e maravilhosa antes de qualquer vocação crítica, antes de qualquer desejo e qualquer pretensão de expressar meu prazer de comer. Um sabor esquecido, acomodado no mais profundo de mim mesmo e que se revela no crepúsculo de minha vida como a única verdade que ali se tenha dito – ou feito. Procuro e não encontro.”
 
Muriel traça um perfil deste homem com seu acerto de contas e sua busca obsessiva através de suas emocionadas rememorações intercaladas com depoimentos de personagens que participaram da vida dele. Desde a esposa magoada e abnegada e os filhos fragilizados e rejeitados até o gato de estimação, todos tem algo a contar e estes curtos desabafos provocam comoção e reflexão pelo peso dos sentimentos contraditórios e pela impossibilidade de qualquer resgate.
Quanto à “Elegância do ouriço”, tive uma boa surpresa. Também gostei tanto que pretendo relê-lo, pois novamente tenho a sensação de que a escrita poética desta autora nunca é totalmente absorvida numa primeira leitura. Curiosamente, ela desenvolveu uma história que se passa no mesmo prédio luxuoso, no centro de Paris, com seus moradores ricos e fúteis. E na mesma linha de tempo em que Pierre Arthens está morrendo. Personagens que são apenas esboçados em “A morte do gourmet” tornam-se mais densos e bem elaborados como, por exemplo, Renée, a zeladora, com seu insuspeitado refinamento, ganhando plenitude e voz de protagonista. Ela, juntamente com a inteligente adolescente Paloma, que busca um sentido para a vida  e o Sr. Ozu, com sua paz e sabedoria, novo morador que chega para ocupar o apartamento da família Arthens, discorrem em pensamentos solitários ou compartilhados sobre filosofia, arte,  a vida e seus segredos, amores e ausências de forma arrebatadora. Li, em mais de uma resenha sobre o livro, que são personagens improváveis. Ora, se encontramos pessoas improváveis na vida real, por que não na ficção? Aliás, de que é feita a melhor ficção senão do inesperado?
De qualquer forma, para quem gosta de ler sobre a vida e suas improbabilidades, recomendo os dois romances e, com segurança, o que mais vier de Muriel Barbery.
 
 
 
Por Aline Andra
 
 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O assalto - Mia Couto



"Velho homem" de Vincent Van Gogh
 

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.
Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.
— Para trás!
Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?
— Diga qualquer coisa.
— Qualquer coisa?
— Me conte quem é. Você quem é?
Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar.
— Vá falando.
— Falando?
— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.
— Você brinca e eu …
Não concluiu ameaça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.
— Vá, vamos mais para lá.
Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?
Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:
— O que quer de mim?
— Eu quero conversar.
— Conversar?
— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.
E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:
— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.
E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor, a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros.
 
 Extraído do livro “Ficções 3” – Ed. 7 letras






SOBRE O AUTOR:
 

 Antônio Emílio Leite Couto é o nome completo do aclamado escritor moçambicano, Mia Couto. Decidiu-se pelo apelido, ainda criança, por causa da relação de afeto com os gatos. Nascido em 5 de julho de 1955 em Beira, Mia Couto tem ascendência portuguesa.
Começou a publicar seus poemas aos 14 anos, no jornal “Notícias da Beira”.
Em 1972, decidiu estudar Medicina. Por essa altura, o regime exercia grande pressão sobre os estudantes universitários. O conjunto dessas circunstâncias levou-o a colaborar com a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), partido clandestino marcado pela luta dos moçambicanos contra a relação de subjugação  por Portugal. Após dois anos, abandonou a universidade e enveredou pelo jornalismo, tornando-se repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique, onde formou ligações de correspondentes entre as províncias durante o tempo de guerra pela libertação, da revista semanal “Tempo” e do jornal “Notícias de Maputo”.
Em 1985, abandonou a carreira jornalística. Voltou à Universidade, onde se formou em Biologia. Como biólogo, dirige a IMPACTO Lda, empresa que faz estudos de impacto ambiental em Moçambique. Além disso, é professor da cadeira de ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane.
Paralelamente, continua a escrever e a publicar seus livros. Sua criação literária é totalmente influenciada pelo regionalismo. Estão presentes os sentimentos e a realidade do povo moçambicano, sua ligação com a terra e com a tradição, além de uma nova maneira de falar ou “falinventar” que continua a ser a sua marca registrada. Fã declarado de Guimarães Rosa, que também provocou uma revolução de inventiva linguística, pode-se dizer que Mia Couto é um “escritor da terra”. Sua linguagem fértil em neologismos confere à sua obra uma singular percepção e uma interpretação delicada e sutil da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada não é somente fruto de extrema criatividade. Ela encontra seu lugar através de um processo poético de mestiçagem entre o português “culto” e as variáveis formas dialectais da população moçambicana, uma das mais pobres e martirizadas do mundo, recém-saída de 30 anos de guerra civil e onde persiste uma forte transmissão da literatura e dos saberes essencialmente por via oral. Numa cultura onde se diz que "cada velho que morre é uma biblioteca que arde", Mia empreende a fundamental tarefa de ligar a tradição oral africana à tradição literária ocidental. 
Sua obra é extensa e diversificada incluindo poesias, contos, romances e crônicas. É o único escritor africano a tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras e é, atualmente, o autor moçambicano mais traduzido.  Seus livros são divulgados em 24 países e alguns são adaptados para teatro e cinema, já tendo recebido vários prêmios nacionais e internacionais.
Um autor que surpreende, contamina o coração de quem o lê e que escreve “pelo prazer de desarrumar a língua”. Nada menos que brilhante!

 

 

Fontes das imagens: Google

Fontes das pesquisas: http://mozindico.blogspot.com.br
                                        http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto
                                        http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br   

 

 

 

 Por Aline Andra