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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Oração celta


 


Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento
quando novas fronteiras acenam.
Que respondas ao chamado do teu dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que a tua dignidade exterior reflita
uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar
os milagres silenciosos que não buscam atenção.
Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia
como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.


 
(do livro Ecos Eternos, de John O'Donohue - Editora Rocco)








Por Aline Andra



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Intimidade





Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz e desfaz
entretanto
não lhe importam teu sonho
nem meu sonho
somos trôpegos
ou demasiado cautelosos
pensamos que não cai
essa gaivota
cremos que é eterno
este conjuro
que a batalha é nossa
ou de nenhum
juntos vivemos
sucumbimos juntos
porém essa destruição
é uma brincadeira
um detalhe uma rajada
um vestígio
um abrir-se e fechar-se
o paraíso
já nossa intimidade
é tão imensa
que a morte a esconde
 em seu vazio
quero que me relates
o duelo que te cala
por minha parte te ofereço
minha última confiança
estás sozinha
estou sozinho
porém às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.


Mário Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)


No original:

Intimidad

Soñamos juntos
juntos despertamos
el tiempo hace o deshace
mientras tanto
no le importan tu sueño
ni mi sueño
somos torpes
o demasiado cautos
pensamos que no cae
esa gaviota
creemos que es eterno
este conjuro
que la batalla es nuestra
o de ninguno
juntos vivimos
sucumbimos juntos
pero esa destrucción
es una broma
un detalle una ráfaga
un vestigio
y un abrirse y cerrarse
el paraíso
ya nuestra intimidad
es tan inmensa
que la muerte la esconde
en su vacío
quiero que me relates
el duelo que te callas
por mi parte te ofrezco
mi última confianza
estás sola
estoy solo
pero a veces
puede la soledad
ser
una llama








Por Aline Andra

 

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Preparativos de viagem







Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: o equador, uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher a mala. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.


 
Nuno Júdice








Por Aline Andra





domingo, 5 de outubro de 2014

Estatuto do homem

 
 
 

 
(Ato Institucional Permanente)


   Artigo I

 Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
  
    Artigo II
 
 Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 
    Artigo III

 Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


    Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu


Parágrafo único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

  
    Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
 
 
    Artigo VI
 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

  
    Artigo VII

 Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
 
  
    Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

 
    Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
 
  
    Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
 
  
    Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

  
    Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


 Parágrafo único:

 Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


    Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


 Artigo Final:

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964
 


Porque hoje é dia de tristes eleições no meu país.


Por Aline Andra
 
 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O louco





 

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim:
um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas

- as sete máscaras que eu havia confeccionado
e usado em sete vidas -e corri sem máscara pelas
ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram
para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça
do mercado, um garoto trepado no telhado de uma
casa gritou: "É um louco!".

Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e
minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras. E, como num
transe, gritei:

"Benditos, benditos os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
 e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual
que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

 
Khalil Gibran (1883-1931)

 

 

 

Por Aline Andra


 

domingo, 24 de agosto de 2014

Um songo





 

Manoel de Barros (1916) é um dos meus poetas preferidos. Garimpei este trecho de uma entrevista exclusiva feita pelo jornalista e amigo Bosco Martins para a revista Caros Amigos. Na época, ele dizia que o ideal seria  “amarrar o tempo num poste”. Atualmente, seu silêncio é mais do que justificado, mas talvez ele ainda "more na raiz das palavras".
  
 

Bosco Martins – No ano em que completa 50 anos que Rosa lançava Grande Sertão: Veredas, você completa 90 anos, também recriando e remexendo com as estruturas formais da literatura. Trace um paralelo do que representa este momento.
Manoel de Barros – Outra vez o Rosa me contou: Precisei botar o nosso idioma a meu jeito afim que eu me fosse nele. Botei minhas particularidades. Usei de insolências verbais, sintáticas e semânticas, me encaixei na linguagem. Fiz meu estilo. Eu achava que o escritor havia que estar pregado na existência de sua palavra. E você, Manoel? me perguntou. Respondi: eu andei procurando retirar das palavras suas banalidades. Não gostava de palavra acostumada. E hoje gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas. Tenho preguiça de ser sério.
 

Bosco Martins – O que ficou na sua cabeça de seu encontro com Rosa?
Manoel de Barros – Conheci o Rosa na primeira viagem que ele fazia para o Pantanal. Fui ao encontro de um mito. Porque para mim ele era um mito. Porém no instante que o conheci ele se tornou um ser amável e bom de conversa. Conversamos sobre nada e passarinhos. Foi uma conversa instrutiva!



Bosco Martins – Aos noventa anos sempre voltamos à infância? Você afirma que seu conhecimento vem da infância, é porque talvez, como Sócrates, tudo que sabemos é que nada sabemos?
Manoel de Barros – A metáfora era essa mesmo. Tudo o que eu aprendera até meus noventa anos era nada; meus conhecimentos eram sensoriais. O que aprendi em livros depois não acrescentou sabedoria, acrescentou informações. O que sei e o que uso para a poesia vêm de minhas percepções infantis.


Bosco Martins – Fale um pouco sobre a infância, a juventude e a velhice.
Manoel de Barros – A um editor, que me sugeriu que escrevesse um livro de memórias, eu respondi que só tinha memória infantil. O editor me sugeriu que fizesse memória infantil, da juventude e outra de velhice. Estou escrevendo agora minhas memórias infantis da velhice.


Bosco Martins – Tem uma frase de um ator que nunca me saiu da cabeça. Dizia que Deus fez tudo bom, só cometendo um erro: a duração da vida. A vida é muito curta e deveria ser não infinita, pois seria muito chata, mas pelo menos o dobro. Duas vidas, uma para ensaiar e outra pra representar. Você concorda com isso?
Manoel de Barros – Concordo sim. E até proponho uma solução científica. Seja esta:
 O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!
E respondendo mais: dia que a gente estiver com tédio de viver é só desamarrar o Tempo do Poste.
 
 
Bosco Martins – Se a angústia é um espinho na carne que não se pode tirar, para o poeta a passagem do tempo é angustiante?
Manoel de Barros – Para mim, viver nunca foi angustiante. Tirando o nunca até que venho bem até aqui. Sou como o vaqueiro Santiago. Santiago, no galpão desafiou que não cairia de um cavalo famanaz  de brabo que havia na fazenda. Todo mundo zombou do Santiago que estaria a contar vantagem. Então arriaram o cavalo Famanaz e Santiago amontou de espora e chicote. O cavalo saiu disparado e a corcovear de lado e pra frente. Ao passar pelo galpão, os peões viram escrito à espora na paleta do animal esta frase: Até aqui Santiago veio bem. Pois é: até aqui...

 
 Bosco Martins – O que há de se fazer frente ao mistério das coisas? E para o poeta, qual o sentido da vida?
Manoel de Barros – Sou um homem de fé. Acho-me incompleto e por isso preciso do mistério. Pra mim, a razão é um acessório. Preciso acreditar que estou nas mãos de Deus. Sem fé eu me sinto um símio.


Bosco Martins – O que o poeta teria a dizer sobre o amor, a inveja e o ódio.
Manoel de Barros – Algum tempo sonhei meu socialismo. Seria baseado nas palavras de Cristo “Amar o próximo como a nós mesmos”. Logo enxerguei que o sonho era utópico. Porque o ser humano nasce com ambições diferentes. Ambição de poder. Ambição de dinheiro. Como então amar ao próximo como a ele mesmo? A palavra de Cristo é genial e por isso utópica. A ambição destrói qualquer amor ao próximo. A inveja e o ódio também.
 
 
Bosco Martins – O pintor Marc Chagall, morto em 1985, dizia que a coisa mais importante na vida para ele era o amor, “Se você tem uma mulher a quem você ama, então isso é tudo”.
Manoel de Barros – Encontrei na Stella a mulher e companheira de todas as horas. Na alegria e na tristeza – como nos prometemos no casório. Conseguimos um amor profundo e sonhado em todos os dias.
 
 
Bosco Martins – Um dos seus poucos livros “inéditos” e fora do prelo, Nossa Senhora da Minha Escuridão, é um livro um tanto deísta, meio católico para quem o leu. Você crê mesmo em Deus, ou como a maioria dos poetas, no fundo no fundo, é um agnóstico?
Manoel de Barros – Eu não sou agnóstico. Eu creio em Deus mesmo. E não precisei ler muito para descrer; eu aprendi alguma coisa lendo. Mas onde eu aprendi mais foi na ignorância. A inocência da natureza humana ou vegetal ou mineral me ensinou mais. Quem não conhece a inocência da natureza não se conhece. Não há filosofia nem metafísica nisso. O que sei, na verdade, vem das percepções infantis. Que não deixa de ser o ensino pela ignorância.
 
 
Bosco Martins – Por que alguns acham graça na sua poesia? Seria por expor um dialeto infantil? Memória Inventadas – A Segunda Infância, por exemplo, seria na sua concepção, uma brincadeira de criança?
Manoel de Barros – Aprendi com meu filho de cinco anos que a linguagem das crianças funciona melhor para a poesia. Meu filho falou um dia: Eu conheço o sabiá pela cor do canto dele. Mas o canto não tem cor! Aí veio Aristóteles e lembrou: É o impossível verossímil. Pois não tem disso a poesia?
 
 
Bosco Martins – Seus versos têm mesmo pernas, bocas, sexo, etc.? A humanização das coisas está em sua poesia?
Manoel de Barros – Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal.
 
 
Bosco Martins – Se tivesse que ser crítico de seus poemas, quais temas você diria que são mais recorrentes?
Manoel de Barros – Acho que ser gente é o tema tão mais recorrente. Ou não ser gente. Se o tempo não é humano, eu humanizo. Amarro o tempo no poste para ele parar. Boto a Manhã de pernas abertas para o sol. Me horizonto para os pássaros. Uma ave me sonha. O dia amanheceu aberto em mim.
 
 
Bosco Martins – Por que os clássicos são sempre necessários e quais influências na sua literatura, dos “faróis” da poesia mundial, Valéry, Baudelaire e Homero?
Manoel de Barros – Penso que a partir dos “faróis” o poema passou a ser um objeto verbal. Por antes ele andava romântico. Recebia inspirações celestes. E até se falava em mensagens poéticas. Depois de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, poesia passou a ser feito de palavras e não de sentimentos. Poesia é fenômeno de linguagem e não de ideias.
 
 
Bosco Martins – Quanto tempo da “inspiração súbita” demora para virar um poema?
Manoel de Barros – Inspiração eu só conheço de nome. O que eu tenho é excitação pela palavra. Se uma palavra me excita eu busco nos dicionários a existência ancestral dela. Nessa busca descubro motivos para o poema.
 
 
Bosco Martins – Você está escrevendo algo no momento? E além de escrever, o que dá mais prazer ao poeta nos dias de hoje?
Manoel de Barros – Estou escrevendo a terceira parte das minhas Memórias Inventadas. No demais, releio minhas velhas preferências literárias. E de tarde, bem na hora do crepúsculo do dia que emenda com o meu crepúsculo, ouço música. A música erudita, principalmente, desabrocha minha imaginação. Acrescento um pouco de álcool que me ajuda a ter visões. Mais tarde elaboro as visões.
 
 
Bosco Martins – De que forma você recebe as críticas positivas e negativas sobre o seu trabalho?
Manoel de Barros – Não sou diferente: as críticas contra fazem um gosto amargo na alma. As boas melhoram o nosso ego.
 
 
Bosco Martins – Você tem fascínio pelo primitivismo e já morou com índios. O que seria o conceito de vanguarda primitiva?
Manoel de Barros – Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios. Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genética. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras. O conceito de Vanguarda Primitiva há de ser virtude da minha fascinação pelo primitivo. Essa fascinação me levou a conhecer melhor os índios. Gosto muito também de ler as narrativas dos antropólogos.
 
 
Bosco Martins – Na sua concepção, o ódio não se caracterizou muito neste último século? Para o poeta ainda existe alguma esperança no futuro?
Manoel de Barros – Eu me considero um songo no assunto.
 
 
"UM SONGO"
 Poema de Manoel de Barros
 Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.









Fonte das imagens: Google
Fonte da entrevista: www.boscomartins.com.br







Por Aline Andra


 
 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Noturno






Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha.
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

 Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mãos…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?



Ariano Suassuna (16 de junho de 1927-23 de julho de 2014)

 
A “Caetana”- como é chamada a morte no sertão da Paraíba e Pernambuco - veio buscar o Grande Ariano. Escritor, dramaturgo, poeta, professor, advogado, acadêmico, idealizador do Movimento Armorial (cujo objetivo é criar arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina) e provavelmente muito mais se tempo houvesse, ele foi um dos que lutaram bravamente a favor de uma cultura genuinamente brasileira. Ariano já foi chamado de “Dom Quixote arcaico”, por viver esgrimindo contra os moinhos de vento da globalização. Não se incomodou. Por que o faria? Foi capaz de construir uma literatura épica, incomum e absolutamente valorosa.
E se ao chegar, curioso e festejado, nesse outro mundo cheio de novos desafios, alguém perguntou “Como foi? Conta para mim!”, ele  talvez tenha respondido, à moda de Chicó do Auto da Compadecida:
-”Não sei. Só sei que foi assim!”


 

 



Por Aline Andra
 

 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Aos Atletas







“...depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

 
Canta, canta, canarinho,
a sorte está lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

 
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens - estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
O dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte."

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Por Aline Andra