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sexta-feira, 27 de junho de 2014

O amor depois do amor





Virá o tempo
em que, exultante,
saudarás a ti mesmo chegando
à tua porta, em teu espelho,
e cada qual sorrirá ante a saudação do outro,


e dirá, senta-te aqui. Come.
Voltarás a amar o estranho que foste.
Dá vinho. Dá pão. Devolva seu coração
a ele mesmo, ao estranho que toda a vida


te amou, que por outro
ignoraste, que te conhece a fundo.
Pega as cartas de amor na estante,


as fotografias, as anotações desesperadas,
descasca do espelho a tua imagem.
Senta-te. Celebra tua vida.


Derek Walcott (1948-1984)



No original: Love after love


The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other’s welcome,


and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was yourself.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you


all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,


the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.


 



Por Aline Andra


 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Bem no fundo






No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


Paulo Leminski


 

Por Aline Andra


 

domingo, 4 de maio de 2014

Estou escondido na cor amarga do fim da tarde





estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento
 
*grafia do texto original
 
valter hugo mãe




Por Aline Andra




quinta-feira, 3 de abril de 2014

Canção na Plenitude





Não tenho mais os olhos de menina
 nem corpo adolescente, e a pele
 translúcida há muito se manchou.
 Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
 agrandada pelos anos e o peso dos fardos
 bons ou ruins.
 (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
 
O que te posso dar é mais que tudo
 o que perdi: dou-te os meus ganhos.
 A maturidade que consegue rir
 quando em outros tempos choraria,
 busca te agradar
 quando antigamente quereria
 apenas ser amada.
 Posso dar-te muito mais do que beleza
 e juventude agora: esses dourados anos
 me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
 e não menos ardor, a entender-te
 se precisas, a aguardar-te quando vais,
 a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
 e sobretudo força — que vem do aprendizado.
 Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
 cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
 cujas correntes ocultas não levam destroços
 mas o sonho interminável das sereias.
 
 
Lya Luft
 
Extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.





 
 
Por Aline Andra




sábado, 1 de março de 2014

A estrada não seguida



 




Duas estradas divergiam em um bosque amarelo
e lamentando não poder seguir por ambas
e ser um só viajante, longamente eu permaneci
e olhei uma delas até o mais longe que pude,
para onde ela sumia entre os arbustos.

Então, segui a outra, igualmente bela
e tendo talvez clamor maior
porque era gramada e convidativa;
Embora quanto a isso, as passagens
houvessem lhes desgastado quase que o mesmo,

e ambas naquela manhã se estendiam
em folhas que nenhum passo enegrecera,
Oh, eu guardei a primeira para um outro dia!
Contudo, sabendo como um caminho leva a outro,
eu duvidei de que um dia voltasse.

Eu estarei contando isso com um suspiro
a eras e eras daqui:
Duas estradas divergiam em um bosque, e eu –
Eu escolhi a menos percorrida,
e isto fez toda a diferença.




The road not taken
 
Two roads diverged in a yellow wood,
and sorry I could not travel both
and be one traveler, long I stood
and looked down one as far as I could
to where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
and having perhaps the better claim
because it was grassy and wanted wear,
though as for that the passing there
had worn them really about the same,
 
And both that morning equally lay
in leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
somewhere ages and ages hence:
two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
and that has made all the difference.


Robert Frost






Por Aline Andra

 
 


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Raiz de orvalho

 
 
 
 
 
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei  ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


Mia Couto

 

 

 

Por Aline Andra

 

 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Serenidade (Desiderata)



Fonte: Google


Meu marido recita esta poesia em prosa quase diariamente durante seus exercícios de impostação de voz (acho que é um hábito, um resquício do tempo em que foi professor). Enquanto ele o faz em alto e bom som, eu silencio e vou interiorizando as sábias palavras quase como um mantra. Faz-me bem, sinto-me preparada para enfrentar o dia e com a impressão de ter reafirmado o acordo tácito que fiz comigo mesma de tentar, na medida do possível, viver  na contramão.
 
 
 
SERENIDADE (DESIDERATA)
 
Transite com calma entre a bulha e a pressa, e não se recuse a paz do silêncio.
Sem sacrificar os seus princípios, seja cordial com todos. Mostre sereno e calmo a sua verdade. E escute a dos outros, mesmo a dos pobres de espírito, eles também têm o que dizer.
Evite os barulhentos e os agressivos, eles constrangem o espírito. Comparando-se com os outros, evite a vaidade e a mágoa, pois sempre haverá gente abaixo e acima de você.
Goze as suas vitórias como os seus projetos. Não despreze a sua carreira. Por mais humilde que seja, ela será um bem nas incertezas do amanhã. Proceda com cautela nos contratos de comércio, pois o mundo está cheio de raposas. Mas que a cautela não o cegue para a virtude. Existe idealismo também e não falta heroísmo no mundo.
Seja fiel a si mesmo. Acima de tudo, nunca finja afeição. Jamais seja cínico em amor, pois mesmo com o risco de aridez e desencanto, ele é perene como a grama.
Aceite de bom grado as ponderações da idade, não se apegue aos bens da juventude. Exercite a fortaleza de ânimo para se garantir nos desastres súbitos. Mas não se deixe transportar pela imaginação. Muitos receios nascem do cansaço e da solidão.
Adote uma disciplina saudável, mas não se esgote por ela. Você é filho do Universo, como as árvores e as estrelas, e tem o direito de estar aqui! E quer você queira quer não, o universo se expande como deve.
Esteja pois em paz com Deus, com o seu Deus, e sejam quais forem as suas lutas e os seus ideais, viva em paz com a sua alma, mesmo no fragor das batalhas.
Malgrado as imposturas, as durezas e as decepções, o mundo ainda é belo. Tenha cuidado. Procure ser feliz.
 
Max Ehrmann, filósofo e poeta (1872-1945)
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 
 
 
 

sábado, 9 de novembro de 2013

Traduzir-se



 
 
Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta
outra parte
 se espanta.

Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
 será arte?

 

 Ferreira Gullar

 

 


Por Aline Andra
 
 
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Haver


 




Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.


Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.


Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.



Vinicius de Moraes
 
 
 
Poesia extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos" (Companhia das Letras, São Paulo, 1993)


 
 
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 


 

domingo, 22 de setembro de 2013

Súplica


 
 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
e que nele posso navegar sem rumo,
não respondas
às urgentes perguntas
que te fiz.
Deixa-me ser feliz
assim,
já tão longe de ti como de mim.

 Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
o nosso amor
durou.
Mas o tempo passou,
há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
matar a sede com água salgada. 


Miguel Torga

 

 

 

Por Aline Andra


 
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Quero ser um brincador



“Carlinhos" – Óleo sobre tela
  Aline Andra



Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador…
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.»

 
Álvaro Magalhães
 
 
 
 
 
Por Aline Andra

 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Carta (Esboço)



Ilustração de Geraldo Roberto da Silva


 
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de fato, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para refletir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exata de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exata, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de fato, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

 

Nuno Júdice (em Poesia reunida, 2001)
 
 
 
 
Por Aline Andra

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Jardim interior



 
 
 
Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

 

Mario Quintana
 
 
 
 
 
 
 Por Aline Andra
 
 
 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Tua dádiva



Fonte: Google 


Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.
Abriga-me no teu corpo
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.
Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.
Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, a verdadeira,
chão de tua sombra que passa,
e da tua luz que se planta.

 Lya Luft