terça-feira, 9 de abril de 2013

Receita pra lavar palavra suja



 
 

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente
sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,
sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,
o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.

 
Viviane Mosé (do livro Toda Palavra – 1997)
 

 
 
 
 

domingo, 7 de abril de 2013

O mare e tu - Dulce Pontes e Andrea Bocelli





 Dulce Pontes, uma das cantoras portuguesas mais populares e reconhecidas internacionalmente, costuma definir-se como uma artista da World Music. Suas escolhas de repertório são o resultado de pesquisas de vários estilos na área musical e de parcerias pontuais com prestigiados cantores e compositores. Entretanto, não é possível conceber o novo fado deste início do século XXI sem a contribuição decisiva de suas interpretações sensíveis e genuínas, dentro da melhor tradição musical e poética portuguesa e de sua voz intensa, quase dramática.
O timbre de voz do tenor italiano Andrea Bocelli é tão reconhecível como uma assinatura. Cantor e músico versátil – canta de ópera a música pop e toca piano, flauta, saxofone, trompete, harpa, violão e bateria – que soube se impor, superando uma deficiência física, com uma sensibilidade extraordinária e única e com sua percepção das sutilezas da expressão musical.
Um dueto poderoso!

 








Por Aline Andra

 

sábado, 6 de abril de 2013

Planeta Vivo




 
 
CAVERNAS DE GELO - ISLÂNDIA
 
Cavernas de gelo são estruturas incrivelmente bonitas que aparecem na borda das geleiras. Essa está localizada na lagoa congelada da geleira Svinafellsjökull no Parque Nacional de Skaftafell. O gelo descendo pelas encostas da geleira durante séculos transformou-se em gelo glacial altamente pressurizado e que quase não contém bolhas de ar. A falta de ar significa que ele absorve quase toda a luz visível para além da fração azul que é, então, vista a olho nu. No entanto, essa cor deslumbrante mostra-se apenas no inverno, após longos períodos de chuva, quando a camada de superfície da geleira foi lavada.
 
 
 
 
FORMAÇÃO DE DANXIA - CHINA
 
Localizada no nordeste de Shaoguan, cidade da província de Guangdong, essas formações rochosas incomuns, de inacreditáveis penhascos íngremes e coloridos, caracterizam o monte chamado Danxia, que significa “raios vermelhos de sol” em chinês. Em volta dos penhascos, os lugares mais planos são cobertos por vegetação exuberante. A rocha vermelha no Monte Danxia surgiu há 100 milhões de anos. Era um ambiente muito quente e seco e, sendo assim, a rocha foi oxidando e criando um tipo de ferrugem. Passando por um período de 30.000.000 anos, os depósitos na bacia foram gradualmente se transformando em arenito vermelho e conglomerados. Mais tarde, como resultado do movimento da crosta terrestre, a terra levantou-se e transformou a área em um sistema montanhoso.
 

 
 
 PARQUE DOS LENÇÓIS - BRASIL
 
Situado no litoral oriental do Maranhão, o Parque dos Lençóis é um paraíso ecológico com 155 mil hectares de dunas, rios, lagos e manguezais. Este raro fenômeno ecológico foi formado ao longo de milhares de anos através da ação da natureza. Nasceu da combinação do leito arenoso do Rio Preguiça com os ventos que sopram na direção do continente, jogando as areias de volta para o interior. As águas pluviais formam lagoas que se espalham por praticamente toda a área do parque, formando uma paisagem inigualável.
 
 
 
 
ÁRVORES TORTAS - POLÔNIA
 
As quatrocentas árvores, aproximadamente, da chamada “Floresta Torta” ficam localizadas em meio a uma grande área de pinheiros perto de Gryfino, no noroeste da Polônia. Acredita-se que elas foram plantadas e deixadas para crescer durante sete a dez anos até que foram dobradas por alguma intervenção humana para posterior utilização dos troncos na fabricação de móveis ou na estrutura dos cascos de embarcações, mas antes que pudessem ser cortadas para essas finalidades, elas foram abandonadas em virtude da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, são apenas especulações. Não há registros parecidos ou explicações para este mistério.
 

 
 
 
BAÍA BIOLUMINESCENTE - PORTO RICO
 
 
 A bioluminescência natural é causada pela presença na água de quantidades enormes do Noctiluca Scintillans, um dinoflagelado unicelular fotossintético de tamanho microscópico e um dos componentes do que chamamos de forma generalizada de fitoplancton. A capacidade de emitir luz deste dinoflagelado ocorre por causa de uma reação química dentro da célula em resposta a um estímulo mecânico como, por exemplo, pés ou mãos batendo na água ou mesmo a maré batendo na areia. Este fenômeno, que acontece somente à noite, é um espetáculo único e inesquecível.
 
 
 
 
 
CAVERNA DOS CRISTAIS - MÉXICO
 
 
 A caverna dos cristais gigantes de Naica está localizada numa área de exploração mineral, no estado de Chihuahua. O complexo contém alguns dos maiores depósitos mundiais de prata, zinco e chumbo. Lá, foram achados os maiores cristais naturais de selenita do mundo que chegam a ter mais de 10 metros de extensão. A caverna fica a 300 metros de profundidade e tem dimensões aproximadas de 10x30 metros. As condições para visitá-la são difíceis. A temperatura chega aos 50 graus e a umidade do ar é de 100%. Isto faz com que os fluidos se condensem nos pulmões de quem não usa equipamentos especiais. Um ser humano só pode permanecer neste ambiente por cerca de 6 a 10 minutos, antes que ocorra uma perda severa das funções mentais. Por isso, não é possível transformar essa descoberta numa atração turística.
 
 
 
 
  MAR MORTO – ORIENTE MÉDIO
 
Em hebraico, o Mar Morto é “Yam ha-Mela” (mar de sal, Gênesis 14:3), mas o nome popular deve-se à escassez de vida aquática. Na verdade, o Mar Morto é um lago de formato estreito e alongado e sua característica marcante é a alta concentração de sal. Cerca de 300g de sais para cada litro de água quando a quantidade considerada normal para os oceanos é de 30g de sais para cada litro de água. Sendo assim, suas águas são consideradas as mais salinas do planeta e é praticamente impossível afundar nelas, além das vantagens medicinais e estéticas das altas concentrações de minerais. Nadar no Mar Morto ainda é um clássico imperdível.





Fontes das imagens e pesquisas:   www.imperativo.org
                                                             www.amusingplanet.com
                                                             http://quartzodeplasma.wordpress.com
                                                             www.dailymail.co.uk
                                                             http://meioambiente.culturamix.com
                                                             http://jp-lugaresfantasticos.blogspot.com.br



Por Aline Andra

 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Bem longe daqui...






Estou com metade do meu coração vigiando o sonho de sair dessa grande, barulhenta e tumultuada cidade e ir morar no interior e, quando digo isso, estou me referindo ao sentido geográfico e ao abstrato. Um lugar onde a busca pelo isolamento e pela boa e construtiva solidão, que possibilita reencontros comigo mesma, não seja uma feroz batalha diária e quase sempre perdida. Um cantinho verde e florido onde seja absolutamente natural e previsível viver em conexão com os valores essenciais e mais simples, com a natureza, com o próximo e com os pequenos e preciosos momentos que constroem um dia harmonioso.
A começar pela cozinha...
Que ela seja um lugar onde eu possa procurar receitas em antigos cadernos de família ou reviver  um tempo em que a comida caseira com aromas e sabores ensinados por gerações era absolutamente normal. Sobretudo, um lugar onde não se fale em comfort food (comidas que causam conforto, em tradução livre), a tendência gastronômica da vez, que vem sendo explorada não só pelos chefs de cozinha, mas também pela indústria alimentícia, pela literatura, pelo cinema...
Lembram-se do filme de animação “Ratatouille”, quando o ratinho chef de cozinha Remy conquista o respeito e admiração do temido crítico gastronômico Anto Ego, quando à primeira colherada de um ratatouille (refogado de legumes) se emociona com a recordação de sua mãe e de sua infância?
“A comfort food surgiu como uma forma de resgate da comida simples, doméstica e sem grandes técnicas de preparo, fazendo um contraponto à comida industrializada. Coisa de norte-americano, que percebeu que as pessoas querem resgatar sua história, seus prazeres e sensações agradáveis vividas no passado”, explica Elis Cavalcante, uma das principais consultoras de comfort food no Brasil.
Causa-me certo desconforto pensar que nossas carências e amorosas lembranças estão sendo manipuladas ou exploradas por consultores, empresas, mídia e sabe-se lá mais por quem. Enfim, se chegamos a esse ponto que, pelo menos, essa moda nos traga um saldo positivo, embora desconfie que a “comida caseira” nos restaurantes sofisticados, cujo objetivo é aliviar nossas dores da alma, deve doer no bolso...
Não te deu vontade de fugir para bem longe também?




PANQUECAS DOCES

 
 
 
INGREDIENTES:
 
- 350 g de farinha de trigo
- 1 ovo
- 300 ml de leite
- 3 colheres de chá de fermento em pó
- 1 colher de sopa de açúcar
- 1 colher de chá de sal
- 3 colheres de sopa de manteiga derretida
 
 
MODO DE FAZER:
 
- Misture com o fouet todos os ingredientes secos. Abra um espaço no meio da tigela e coloque os ingredientes líquidos. Incorpore bem. A massa deve ficar resistente, mas cair da concha quando levantada. Se for necessário, acrescente mais um pouco de leite. Unte uma frigideira com manteiga. Coloque uma concha de massa e (em fogo baixo por mais ou menos 1 minuto) espere dourar de um lado, vire e deixe dourar o outro lado. Se a frigideira for grande, não espalhe demais a massa. Ela deve ficar mais grossa. Passe um pouco de manteiga por cima e espalhe a geleia de sua preferência, Nutella ou uma calda feita com duas colheres de sopa de mel, uma colher de sopa de água e raspas de um limão.
Divinas no café da manhã...
 
 
 
 CHÁ DE MAÇÃ




MODO DE FAZER:
 
- Corte o topo da maçã, retire o miolo e coloque para ferver (mais ou menos 1 minuto) com um pau de canela, cravos e um anis estrelado. Pode acrescentar as cascas para ferver junto. Depois coar, devolver para dentro da maçã e decorar com as especiarias. Aconchegante e calmante...
 
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Você já mentiu hoje?





Durante muito tempo, fui um bom alvo para brincadeiras e pegadinhas do Dia da Mentira ou Dia dos Bobos. Era o tipo de pessoa que acreditava primeiro e parava para pensar depois. Com o passar dos anos, sabiamente – ou inevitavelmente – alterei a ordem dos fatores e, confesso, tenho me esforçado para mantê-los assim. Afinal, não pensar e/ou desacreditar não são opções válidas para mim...
Mas quem inventou isso e por qual motivo? Descobri a provável explicação e pareceu-me bem mais simples do que as mirabolantes suposições que fiz.
No séc. XVI, o Ano Novo era comemorado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1º de abril. Em 1564, o rei Carlos IX da França, determinou que o Ano Novo fosse festejado no dia 1º de janeiro, tomando como base o calendário gregoriano. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo. Então, acho que apenas por terem feito uma escolha contrária à imposta, passaram a ser motivo de piadas e brincadeiras como receberem presentes esquisitos ou serem convidados para festas que não existiam. Que coisa mais sem graça!
No Brasil, o 1º de abril começou a ser difundido em Minas Gerais, onde circulou “A Mentira”, um periódico que durou pouco tempo, lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. “A Mentira” saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, num local inexistente.
E entra século, sai século, as pessoas continuam as mesmas...
Hoje, sites e empresas de tecnologia publicaram novidades e lançamentos falsos. Alguns, devo admitir, bem criativos:



G-mail azul



O Google anunciou o lançamento do G-mail Blue.
 “Bonito, rápido e poderoso” e inspirado na Natureza.


Google Nose



Lançamento de um novo serviço de buscas por cheiro! Seriam 15 milhões de cheiros no banco de dados.
“Tente pesquisar no Google por ‘cachorro molhado’ e explorar outros cheiros que as pessoas sentem.”


Twitter começa a cobrar por vogais


  
O Twitter anunciou que começará a cobrar dos usuários o uso de vogais nas mensagens.
“A partir de hoje, todo mundo pode usar nosso serviço básico, o Twttr, mas apenas com consoantes. Por US$ 5 por mês, você pode usar o nosso serviço premium, Twitter, que inclui também vogais”.


Google fecha o Youtube



O Youtube anunciou, por meio do seu blog oficial, que iria encerrar suas atividades a partir de hoje. De acordo com a companhia, os fundadores queriam inventar um concurso para encontrar o melhor vídeo.
“Começamos o processo para selecionar um vencedor e, a partir da meia noite, iremos fechar o site para inscrições.”


Sony lança produtos para animais



A Sony anunciou o lançamento de uma linha chamada “Animalia”, especialmente criada para animais de estimação.
“Na Sony, pensamos em como fazer eletrônicos que atinjam as vidas de todos os membros da família.  Mas tem um membro que é sempre deixado de lado. Até agora”.


Google Maps lança mapa do tesouro



Um modo do Google Maps que transforma o serviço em um mapa antigo de exploração de tesouros.
“Em setembro, nossa equipe descobriu um mapa de papel que foi verificado como sendo o mapa do tesouro do Capitão Kidd. Porém, ainda não deciframos todas as pistas e cabe a você acessar o mapa e desvendar os segredos”.


Leonardo da Vinci criou o Google Glass



O site “Mashable” criou a falsa reportagem de que um cientista da Universidade de Illinois, Burt Wilde, identificou em desenhos de Leonardo da Vinci, artista renascentista, um dispositivo que lembra o Google Glass, óculos de realidade aumentada do Google.


 Avião com chão de vidro



Em seu site oficial, a companhia aérea norte-americana Virgin anunciou a construção de uma aeronave com chão transparente, permitindo que seus passageiros possam olhar o solo ou o céu ao caminhar pelos corredores.
“A experiência de voo é fora de série.”





Fonte das imagens: http://g1.globo.com (por reprodução)
Fontes da pesquisa: http://pt.wikipedia.org
                                    http://g1.globo.com






Por Aline Andra

                            

sábado, 30 de março de 2013

A terceira margem do rio - Guimarães Rosa



"Canoa pelo rio" de Oriana Lima
 

"Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
 Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
 Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a benção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
 Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
 Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
 No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a ideia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
 Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
 A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele aguentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
 Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pelos , com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
 Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
 Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
 Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando ideia.
 Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
 Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
 Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."


Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32.





SOBRE O AUTOR:


Guimarães Rosa, o artesão apaixonado da palavra, reconhecido como o criador de uma das vertentes da moderna linha de ficção do regionalismo brasileiro, místico e supersticioso. Dizia que casas e pessoas possuem fluidos positivos e negativos que interferem nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Essas ideias pontuam toda a sua obra. O universo está no sertão e os homens são influenciados pelos astros.
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (Minas Gerais) em 27 de junho de 1908 e era o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimarães Rosa e Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido por “seu Fulô”, comerciante, juiz de paz, caçador de onças e contador de histórias.
Joãozito, com era chamado, com menos de sete anos começou a estudar francês. Ainda jovem já era um poliglota.
Em entrevista, disse: “Falo português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; Leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito a compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.
Esse conhecimento foi fundamental para a tradução de seus livros, já que ele se notabilizou pela invenção de vocábulos, além do registro da linguagem sertaneja brasileira, inacessível a tradutores estrangeiros.
Em 1925, matriculou-se na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Começou a escrever contos em 1929, ainda estudante. Teve quatro dos seus contos premiados e publicados no concurso da revista “O Cruzeiro”.
Clinicando em Itaguara, pequena cidade do município de Itaúna (Minas Gerais) e depois como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, Guimarães Rosa descobriu seu interesse pela terra, costumes, pessoas e acontecimentos do cotidiano e inspirado por suas experiências, começou a colecionar terminologias, ditos e falas do povo, que distribuiu pelas histórias que escreveu.
Abandonou a Medicina e foi nomeado Consul Adjunto em Hamburgo em 1938. Durante a 2ª Guerra Mundial, ele e sua esposa protegeram e facilitaram a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo. Em reconhecimento a essa atitude, foram homenageados em 1985, em Israel, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros. O nome do casal foi dado a um bosque que fica nas encostas que dão acesso a Jerusalém.
Guimarães Rosa retorna definitivamente ao Brasil em 1951. Continua escrevendo contos e novelas e em 1956, sua obra adquire dimensões universalistas com Grande Sertão: Veredas com seiscentas preciosas páginas de técnica e linguagem inovadoras e, sobretudo, desavergonhadamente poéticas.
Até 1967, publicou obras que causaram sempre novas efervescências no meio literário.
Apesar de ter sido eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1963, adiou sua posse por quatro anos por medo de não resistir à emoção que o momento lhe causaria. Disse no discurso de posse: “... a gente morre é para provar que viveu”. Efetivamente, três dias após a cerimônia, em 19 de novembro de 1967, ele morreria subitamente, sozinho em sua casa, aos 59 anos.

“Eu ando meio febril, repleto, com um enxame de personagens a pedirem pouso em papel. É coisa dura e já me assusta antes de pôr o pé no caminho penoso que já conheço”. (Guimarães Rosa)




Fontes das imagens: http://proarte.webnode.com.br 
                                     Google

Fontes das pesquisas: http://cmais.com.br
                                        www.releituras.com
                                        www.brasilescola.com



Por Aline Andra

                                                                     

quarta-feira, 27 de março de 2013

Os rostos urbanos de Vhils





Alexandre Farto, conhecido como Vhils no mundo dos escultores, pintores e grafiteiros, nasceu em Portugal em 1987. Terminou sua formação artística em Londres em 2008. Com 13 anos, iniciou-se na pintura, colorindo muros e comboios da margem sul do rio Tejo. Artista urbano, tem explorado novos caminhos dentro da ilustração, animação e design gráfico.
Existem trabalhos seus espalhados por vários locais do mundo.
Gosto especialmente de seus retratos cinzelados em paredes. Para isso, ele utiliza uma variedade de técnicas e materiais como explosivos, brocas, água sanitária, tinta spray e stencil.
Admiro sua ousadia de, como ele mesmo explica, através de um ato de vandalismo (o ato de destruir a fim de criar) levado ao extremo, transformar o que era comum e  inóspito em uma obra de arte.





















"Eu nunca tenho e nunca quero ter o controle absoluto sobre o que estou fazendo. Eu gosto do inesperado e do incerto." (Vhils)



Fontes de pesquisa e imagens:   http://alexandrefarto.com
                                                   http://pt.wikipedia.org/wiki/Vhils 
                                                   www.dailytelegraph.com.au 




Por Aline Andra