quarta-feira, 19 de junho de 2013

O assalto - Mia Couto



"Velho homem" de Vincent Van Gogh
 

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.
Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.
— Para trás!
Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?
— Diga qualquer coisa.
— Qualquer coisa?
— Me conte quem é. Você quem é?
Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar.
— Vá falando.
— Falando?
— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.
— Você brinca e eu …
Não concluiu ameaça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.
— Vá, vamos mais para lá.
Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?
Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:
— O que quer de mim?
— Eu quero conversar.
— Conversar?
— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.
E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:
— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.
E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor, a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros.
 
 Extraído do livro “Ficções 3” – Ed. 7 letras






SOBRE O AUTOR:
 

 Antônio Emílio Leite Couto é o nome completo do aclamado escritor moçambicano, Mia Couto. Decidiu-se pelo apelido, ainda criança, por causa da relação de afeto com os gatos. Nascido em 5 de julho de 1955 em Beira, Mia Couto tem ascendência portuguesa.
Começou a publicar seus poemas aos 14 anos, no jornal “Notícias da Beira”.
Em 1972, decidiu estudar Medicina. Por essa altura, o regime exercia grande pressão sobre os estudantes universitários. O conjunto dessas circunstâncias levou-o a colaborar com a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), partido clandestino marcado pela luta dos moçambicanos contra a relação de subjugação  por Portugal. Após dois anos, abandonou a universidade e enveredou pelo jornalismo, tornando-se repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique, onde formou ligações de correspondentes entre as províncias durante o tempo de guerra pela libertação, da revista semanal “Tempo” e do jornal “Notícias de Maputo”.
Em 1985, abandonou a carreira jornalística. Voltou à Universidade, onde se formou em Biologia. Como biólogo, dirige a IMPACTO Lda, empresa que faz estudos de impacto ambiental em Moçambique. Além disso, é professor da cadeira de ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane.
Paralelamente, continua a escrever e a publicar seus livros. Sua criação literária é totalmente influenciada pelo regionalismo. Estão presentes os sentimentos e a realidade do povo moçambicano, sua ligação com a terra e com a tradição, além de uma nova maneira de falar ou “falinventar” que continua a ser a sua marca registrada. Fã declarado de Guimarães Rosa, que também provocou uma revolução de inventiva linguística, pode-se dizer que Mia Couto é um “escritor da terra”. Sua linguagem fértil em neologismos confere à sua obra uma singular percepção e uma interpretação delicada e sutil da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada não é somente fruto de extrema criatividade. Ela encontra seu lugar através de um processo poético de mestiçagem entre o português “culto” e as variáveis formas dialectais da população moçambicana, uma das mais pobres e martirizadas do mundo, recém-saída de 30 anos de guerra civil e onde persiste uma forte transmissão da literatura e dos saberes essencialmente por via oral. Numa cultura onde se diz que "cada velho que morre é uma biblioteca que arde", Mia empreende a fundamental tarefa de ligar a tradição oral africana à tradição literária ocidental. 
Sua obra é extensa e diversificada incluindo poesias, contos, romances e crônicas. É o único escritor africano a tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras e é, atualmente, o autor moçambicano mais traduzido.  Seus livros são divulgados em 24 países e alguns são adaptados para teatro e cinema, já tendo recebido vários prêmios nacionais e internacionais.
Um autor que surpreende, contamina o coração de quem o lê e que escreve “pelo prazer de desarrumar a língua”. Nada menos que brilhante!

 

 

Fontes das imagens: Google

Fontes das pesquisas: http://mozindico.blogspot.com.br
                                        http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto
                                        http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br   

 

 

 

 Por Aline Andra

 

domingo, 16 de junho de 2013

Sabores do momento





Geleias caseiras são sempre bem-vindas e excelentes opções para aproveitarmos ao máximo as frutas do momento. Ficam deliciosas e, claro, livres de espessantes, edulcorantes, acidulantes, antioxidantes e conservantes!
Receitas de geleias existem às dezenas em ótimos blogs de culinária, mas encontrei este caprichado e estimulante vídeo, onde a chef Tanea Romão ensina a preparar combinações diferenciadas que achei muito interessantes: morango com pimenta e laranja com maracujá.






GELEIA DE MORANGO COM PIMENTA

 Ingredientes:
 - 2 caixas de morangos lavados e sem cabo
- 8 colheres de sopa de açúcar cristal
- ½ limão espremido
- ½ pimenta dedo-de-moça lavada e picada (manter as sementes)

Modo de fazer:

 Misture todos os ingredientes e leve ao fogo brando até o caldo ficar com uma textura  grossa.
Dica: para saber se a textura está correta, é só passar o dedo nas costas da colher. Deverá formar um risco seco. Deixe esfriar antes de consumir. Guarde na geladeira.


GELEIA DE LARANJA COM MARACUJÁ

 Ingredientes:
- 5 laranjas-peras descascadas, sem a pele branca e cortadas em pedaços pequenos
- 2 maracujás maduros
- 12 colheres de sopa de açúcar cristal

Modo de fazer:

 Misture as laranjas picadas às polpas dos maracujás com as sementes. Acrescente o açúcar e mexa até dissolver. Leve ao fogo brando, mexendo sempre. A textura deve ser a mesma da geleia de morango. Deixe esfriar e guarde na geladeira.

Como bônus, a preciosa dica de como higienizar corretamente os potes com geleia para armazenamento.
Adorei!
 
 
 
Fonte da imagem: Google
 


Por Aline Andra


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Arte e meditação



 

 O templo budista Wat Pa Maha Chedi Kaew  é uma das principais atrações turísticas da Tailândia e é também conhecido como “Wat han kuad” que significa “Templo dos milhões de garrafas”.
Os monges da província de Sisaket, próximo a Bangkok, decidiram que podiam ajudar a comunidade local e o meio ambiente. A partir de 1984, começaram a construir o templo onde vivem, utilizando apenas garrafas vazias de cerveja e cimento.
 
 
 
 
O templo é dotado de uma estrutura completa de garrafas incrustadas em paredes de cimento. Já foram construídos mais de vinte edifícios, abrangendo o templo principal, salas de oração, acomodações para os monges, lavabos para os turistas e vários pequenos prédios, além de objetos e móveis utilitários.
 
 
 
 

 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
A cor verde é proveniente das garrafas da mundialmente conhecida cerveja holandesa Heineken (Heineken Pilsener em holandês) e as garrafas de cor marrom são da cerveja tailandesa Chang (Bia Chaaang em tailandês).

 
 
 
 
 
 

Uma curiosidade: vinte anos antes da iniciativa na Tailândia, o proprietário da cervejaria holandesa, Alfred Heineken, teve uma ideia semelhante. Ele chamou o arquiteto holandês John Habraken para desenhar uma garrafa que poderia ser usada como tijolo e o resultado foi a garrafa “Wobo”, mas foi um fracasso comercial.
As tampas das garrafas também são aproveitadas em mosaicos com imagens, principalmente de Buda, e decoram as paredes do templo.
 
 
 
 
 
 
Segundo os monges, as garrafas não perdem a cor e oferecem uma iluminação perfeita.
Um exemplo de arquitetura sustentável e uma ideia brilhante que, tornada realidade, transformou-se num exemplo de criatividade, dedicação e beleza. Uma das maravilhas da bioconstrução.
 
 
 
 
Fontes das imagens e pesquisa: www.treehugger.com
                                                         http://noticias.vidrado.com   
                                                         http://girlbeer.wordpress.com
                                                         http://algarve-saibamais.blogspot.com.br
 
                                                       
 
 
Por Aline Andra
 
 

sábado, 8 de junho de 2013

Viagem no tempo: as gueixas - parte 2


 
 
 

A ficção e as diferenças culturais fizeram com que a ideia que o ocidente tem das gueixas seja distorcida, pouco correspondendo à realidade. Muitos acham que uma gueixa é apenas uma prostituta exótica, algo que choca os japoneses, que as consideram refinadas guardiãs das artes tradicionais.
Embora realmente durante muito tempo a atividade de gueixa tenha sido confundida com a de prostituta, a partir do séc. XVIII algumas medidas que oficializaram e regulamentaram a prostituição, acabaram diferenciando as duas profissões.
Bordéis oficiais foram concentrados em bairros cercados por muros e portões. O governo passou a ter controle, seja sob o caráter repressivo, seja sob o tributário, o que acabou por ser extremamente lucrativo e conveniente. Vários bordéis do Japão feudal apresentavam excelentes condições para receber clientes importantes. Eram limpos, espaçosos, agradáveis e alguns até tinham estrutura para promover banquetes; era mantendo tal atmosfera que as prostitutas procuravam atrair uma clientela seleta e para entretê-los também chamavam gueixas – homens e mulheres – para tocar instrumentos, dançar e cantar. Isto, eventualmente, causava um tipo de concorrência desleal e alguma confusão por parte de estrangeiros. Ocasionalmente algum cliente acabava se interessando por uma gueixa, criando constrangimento e rivalidade entre elas. A situação só se tornou definida em 1779, quando um decreto do governo reconheceu a profissão de gueixa.
Algumas regras que as gueixas passaram a ter que seguir eram semelhantes as das prostitutas, como a obrigatoriedade de viver nas okiyas (casas de gueixas). É importante observar que as prostitutas tinham prioridade em relação às gueixas na sociedade japonesa da época, cujos costumes sociais e religiosos eram bem mais tolerantes no que dizia respeito a sexo. A função e situação delas já estavam definidas há tempos e eram consideradas normais.
Assim, muitas das regras do kenban (cartório de registros e fiscalização) visavam limitar o que as gueixas podiam fazer.





 Como profissional, a gueixa tinha a obrigatoriedade de ser versada em muitas artes – a prostituta não; A prostituta vestia-se com os quimonos de tecidos mais brilhantes, estampados e extravagantes que tivesse; a gueixa foi proibida de usar tais quimonos e obrigada a ter um visual mais discreto; as prostitutas usavam até uma dúzia de kankashis (grandes espetos decorativos para o cabelo, considerados joias) e até três pentes de tartaruga na cabeça – a gueixa foi limitada a três kankashis e um pente; as gueixas foram proibidas de usar o obi amarrado na frente, característica das prostitutas e foram impedidas de ter qualquer envolvimento com os clientes destas.
 
 
 
 
As restrições do kenban moldaram não só a aparência, mas o que efetivamente a gueixa se tornou e é até hoje. Para terem a condição de artistas e serem diferenciadas, valorizadas e remuneradas condizentemente, elas passaram a dedicar enorme tempo ao estudo e treinamento em artes. Tornaram-se mestras da elegância, da beleza discreta e da sensualidade insinuada.
Formar uma clientela masculina cada vez mais seleta era o foco principal, mas o objetivo era apenas o entretenimento, como já foi dito anteriormente. Educadas e cultas, as gueixas tornavam a conversação mais agradável e os clientes conseguiam um tipo de relacionamento que não tinham com as prostitutas e nem mesmo com suas esposas. As gueixas descobriram seu público.
Em 1840, uma gueixa chamada Haizen decidiu aprender um pequeno ofício que era executado até então somente por homens: servir saquê. Haizen passou a fazer o mesmo, bem como fazer companhia aos convivas à mesa quando solicitada. Ela rapidamente tornou-se a gueixa mais requisitada de Kyoto e todas passaram a fazer o mesmo.
Durante os anos finais da Era Edo, as gueixas tiveram participação importante no movimento que restaurou o poder do Imperador e destituiu o xogunato Tokugawa. As casas de chá foram estrategicamente usadas para a organização e reuniões dos “conspiradores” com a conivência e a discrição delas.
Uma gueixa famosa, Kiharu Nakamura (1913-2004) teve uma participação ainda mais significativa. Em plena guerra, casou-se com um homem influente, foi mandada como espiã para a Índia pelo governo do Japão, ficando encarregada das mensagens secretas. Ao regressar, no final da guerra, encontrou seu país devastado e resolveu mudar-se para os Estados Unidos. Tornou-se professora de música e consultora de teatro e ópera e, inclusive, fez parte da ópera “Madame Butterfly”. Morreu aos 90 anos de idade.




Quando o Imperador retomou o trono em 1867, a colaboração das gueixas não foi esquecida. Na Era Meiji (1868-1912), promoveu-se uma rápida modernização e ocidentalização do Japão, com a implantação de ferrovias, indústrias, a adoção de vestimentas e hábitos ocidentais e a proibição de certos costumes que, apesar de arraigados há séculos na cultura japonesa, foram abolidos por constrangerem os ocidentais, como a poligamia e  o hábito de pintar os dentes de preto. As gueixas, entretanto, não só permaneceram intocadas, como foram promovidas pelo governo a símbolos da melhor e mais bela tradição japonesa.
 
 
 
 
 
 
 
 
Elas passaram, a partir desse período, a desfrutar de um fabuloso estilo de vida, tornando-se referência na moda e mantendo contato com políticos influentes e empresários bem sucedidos. Viviam com luxo, frequentavam festas, não faziam trabalhos domésticos, podiam ter vida sexual e não precisavam se casar. O karyukai ("a flor e o mundo do salgueiro"), o mundo da gueixa, era um espaço  dominado pelas mulheres numa sociedade machista.
 
 
 
 
Nas décadas de 1920 e 1930, o Japão conquistou uma grande prosperidade econômica. Políticos, industriais, banqueiros, empresários e a ascendente classe dos militares de alta patente, tornaram-se assíduos e generosos clientes de gueixas, formando uma elite de mecenas das artes respeitada pela sociedade japonesa. O status que a gueixa tinha e dava aos clientes, inspirava muitas mulheres a seguir a profissão, embora poucas efetivamente conseguissem entrar para este reservado mundo. Mesmo assim, em 1920, atingiram o auge com 80 mil gueixas registradas ainda nos moldes do kenban.
 
 
 
 
 
 
A demanda por gueixas era tão alta, que acabou gerando práticas inescrupulosas. Sempre lembradas do enorme investimento que representavam para a okiya, as maikos eram exploradas nos chamados “leilões de virgindade”. Ao completarem 16 anos, a okaasan contatava seus clientes e lhes oferecia a gueixa pela melhor oferta. Para elas, não havia chance de negar ou fugir. A deserção era vista pela sociedade como um ato de traição à okiya e até seus pais as delatavam ou mandavam de volta. Sabe-se que nos anos 30, a virgindade de uma maiko chegou ao valor recorde de 850 mil dólares. Mesmo criticados pela imprensa, os leilões continuaram sendo praticados até a 2ª Guerra Mundial. Com a ocupação americana, tal prática foi considerada abusiva e abolida.
Durante a Era Meiji, as gueixas estavam na vanguarda da moda japonesa. A partir de 1920, elas passaram a sentir o crescente aumento da ocidentalização dos costumes do país. Estrategicamente, decidiram não se modernizar e assumiram definitivamente o papel de praticantes do tradicional.
Nos anos 40, à medida que o Japão se envolvia na 2ª Guerra e começava a escassez de produtos básicos e alimentos, as gueixas continuaram mantendo seu conforto e estilo de vida, pois as okiyas mais prósperas mantinham como clientes, membros ligados ao governo e aos altos escalões militares. Isso contrastava com os sacrifícios impostos ao resto da população civil, conclamada ao esforço de guerra pela pátria e pelo Imperador. Então, em 1944, o governo determinou o fechamento de casas de chá, bares e restaurantes e impôs que todas as mulheres – inclusive as gueixas – fossem trabalhar nas fábricas. Esta situação durou até 1945, quando o governo de ocupação americano autorizou a reabertura das okiyas.
O período pós-guerra (1945-1952) trouxe uma série de novos desafios para as gueixas. A derrota do Japão causou a falência das instituições e de boa parte dos clientes importantes. Uma nova clientela teve que ser conquistada e elas procuraram os oficiais americanos. Se antes as gueixas desprezavam tudo que representava o Ocidente, agora elas procuravam aperfeiçoar o inglês e aprender músicas americanas. O choque de culturas foi inevitável e ocasionou novamente a errônea conclusão de que gueixas eram apenas prostitutas de aparência requintada. E as prostitutas, que até então tinham se mantido apartadas da comunidade das gueixas, passaram a reforçar a confusão para atrair mais clientes.
Uma nova fase de prosperidade se iniciou a partir de 1953, que culminou na atual condição do Japão, considerado uma das maiores economias do mundo. Cultivando tradições, a gueixa permitiu-se algumas modernidades, principalmente para desfazer a equivocada imagem que o ocidente tinha delas. Por exemplo, o governo passou a chamá-las para ciceronear e entreter personalidades  em visitas oficiais ao Japão.
 
 
 
 
 Mesmo assim, na prática, poucos ocidentais ou mesmo japoneses, tem efetivamente contato com uma gueixa. Em público, elas só aparecem em raras ocasiões, como no Jidai Matsuri (Festival das Eras) e na temporada de danças tradicionais, Kamogawa Odori (Danças do Rio Kamo) que ocorrem em outubro em Kyoto. Fora de tais situações, somente ocasionalmente são vistas a caminho das aulas de dança, música e canto ou a caminho de algum restaurante onde irão entreter algum empresário e seus convidados.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 A mudança de valores e hábitos na sociedade japonesa ameaçou a atividade da gueixa. Em curto período de tempo, as mulheres passaram a estudar, trabalhar e desenvolver carreiras bem sucedidas que antes não eram permitidas, inclusive, na política e nos negócios. Parte do fascínio da gueixa estava no fato delas serem as poucas mulheres japonesas com que os homens podiam se relacionar em nível de parceria. Hoje, com oportunidades mais justas, homens e mulheres disputam os mesmos espaços e cargos e procuram mais cumplicidade que subordinação. Tais fatores, embora positivos, reduziram o apelo que elas tinham. Poucas mulheres aspiram a esta profissão no séc. XXI. A população de gueixas verdadeiras no Japão ficou bastante reduzida desde o início do séc. XX. Atualmente há menos de mil registradas. Mesmo assim, quem consegue o status de gueixa, pode desenvolver a atividade por apenas alguns anos até entrar para a universidade ou casar.
As gueixas de hoje são mulheres modernas cuja carreira envolve recriar o passado com arte. As okiyas só aceitam meninas a partir de 17 anos e com o ensino médio obrigatório. Jovens um pouco mais maduras são apostas menos perigosas para a casa, principalmente, por diminuírem o risco de deserção. Para evitar os prejuízos de uma desistência e garantir a continuidade delas nas okiyas, as atuais okaasans procuram tratar bem suas maikos e geikos.
Embora ainda seja uma atividade lucrativa (em média paga-se de 500 a 1000 dólares por hora por gueixa e ela nunca vai sozinha. O comum é trabalharem em pares), os japoneses entendem que, atualmente, para se deixar entreter e apreciar o desempenho de uma gueixa, é necessário que o cliente tenha um certo grau de cultura e sofisticação. Não basta apenas ter dinheiro. A gueixa não é para qualquer um. Para os nostálgicos, o que importa é o que ela representa: a raridade, a exclusividade e a personificação daquilo que há de mais belo na alma do Japão. Sinal dos tempos.
 
 
 
 

“Uma gueixa é como uma flor, bela no seu próprio estilo e deve ser como um salgueiro, graciosa, flexível e forte.” ( Mineko Iwasaki)

 
 
 
 
 
Fontes das imagens e pesquisa: www.culturajaponesa.com.br
                                                        www.fragantica.com
 
 
 
 
 
 
Por Aline Andra
 
 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Viagem no tempo: as gueixas - parte 1



 

 “Gueixas são um deleite para os olhos. Como uma obra de arte viva.” (Cristiane A. Sato)

Sensualidade e exotismo são conceitos parceiros há muito tempo. No Oriente, são sintetizados pelas gueixas. Representantes de uma tradição milenar, são cercadas de uma aura romântica – e muitas vezes equivocada (como veremos mais adiante) – que as torna misteriosas e fascinantes e mostra-nos uma cultura e uma parte do passado que, ainda hoje, provoca curiosidade e admiração.
Em português, a grafia é gueixa. Em japonês, a palavra é geisha com a mesma pronúncia e significa “pessoa de artes”.

 


O surgimento das gueixas está estreitamente relacionado com a maneira pela qual a sociedade japonesa foi organizada a partir do séc. XVII. O governo dos xóguns da família Tokugawa, também conhecido como a Era Edo (1603-1867), tomou crescentes medidas de controle da vida civil. O objetivo era não só manter a estabilidade interna, mas também dar uma forma feudal e hierarquizada à sociedade como um todo, com o intuito de garantir o poder. Influências externas como o Cristianismo eram vistas como desestabilizadoras e subversivas. Assim, em 1673, um édito do xogunato ordenou o fechamento dos portos às potências ocidentais, impedindo o comércio com navios europeus (exceto os da Cia. Das Índias, que eram tolerados porque não misturavam religião e comércio) e a expulsão dos estrangeiros, impondo um isolamento ao Japão que durou dois séculos.
O controle do governo sobre a sociedade atingiu principalmente as mulheres. Excluídas da vida pública, sem voz ativa, obrigadas a casamentos impostos pelas famílias, só lhes restou os papéis de mãe, esposa e dona de casa e não havia profissão que pudessem exercer a não ser na condição de auxiliares dos maridos na agricultura e no comércio.
Segundo a enciclopédia Kondasha, os primeiros registros da palavra geisha datam de 1750 e o termo foi originalmente usado para designar comediantes e músicos do sexo masculino que se apresentavam em banquetes  particulares. Foi nesse contexto que surgiram as onna-geishas, gueixas do sexo feminino. Já que o teatro também passara a ser proibido às mulheres, as festas privadas tornaram-se os únicos lugares onde elas podiam tocar música, dançar e cantar. Por volta de 1780, ainda existiam otoko-geishas (homens), mas as mulheres já eram esmagadora maioria na profissão e, no início do séc. XIX, gueixas eram invariavelmente mulheres.


 
 
 Com paz interna, a vida no Japão floresceu graças ao sankin-kõtai (presença alternada), sistema criado em 1635 pelo governo, que obrigava os senhores feudais das províncias e seus samurais a morar em Edo (atual Tóquio) por alguns meses. Vilas e cidades se prepararam para fornecer produtos e serviços aos viajantes e o comércio prosperou. Um ambiente de refinamento cultural foi estimulado. Artes como  Ikebana (arranjos florais) e a Sadoh (cerimônia do chá) se consolidaram e o entretenimento se sofisticou, criando um cenário perfeito para o desempenho das gueixas.
A maquiagem, o cabelo, o vestuário e os modos de uma gueixa eram calculados para alimentar a fantasia masculina de perfeição feminina. Elas eram treinadas para fazer com que os homens se sentissem superiores e atraentes e eles pagavam muito caro para ter uma gueixa atendendo aos seus caprichos. Uma verdadeira gueixa era, e ainda é, bem sucedida  quando reflete a ideia de uma perfeição inatingível.
 
 
 

Enquanto as esposas não tinham vida social, as gueixas eram as mulheres que exerciam o papel de cultas e belas anfitriãs em uma reunião de negócios, por exemplo.
Também é falsa a imagem – bastante comum para os ocidentais – de que elas eram o estereótipo da mulher submissa. Na verdade, as gueixas eram as únicas mulheres do Japão com uma existência independente e eram responsáveis por suas carreiras, sem as cobranças e preocupações familiares e domésticas das mulheres comuns. Outra peculiaridade era o fato de poderem ter filhos e serem privilegiadas somente as do sexo feminino, ao contrário do costume vigente. Filhas eram candidatas em potencial a futuras gueixas. Crianças do sexo masculino estavam fadadas a papéis secundários dentro das okiyas, como motoristas por exemplo.
As aprendizes (maiko) eram crianças, em torno dos 6 anos, consideradas especiais pela inteligência e/ou rara beleza. Muitas dessas crianças eram vendidas por suas famílias e o passado ficava para trás. Elas ingressavam nas okiyas (casas de gueixas) e, a partir daí, passavam a ter outra “família”. A okaasan (a dona da okiya) assumia o papel de mãe e as outras gueixas, o de irmãs. Uma onesan, uma gueixa formada era escolhida para ser sua mentora. Seu nome era mudado para uma derivação do nome da onesan e havia uma cerimônia que estabelecia o elo entre elas. Cada uma tomava três goles de três copos de saquê.


 
 
As maikos começavam o aprendizado fazendo trabalhos domésticos como limpeza das casas, lavagem das indumentárias, etc., para depois, quando adolescentes, iniciarem seu rigoroso treinamento numa escola especial (Kaburenjo). Por um período mínimo de 5 anos, as meninas deveriam aprender as artes da dança tradicional japonesa (nihon-buyoh), canto, música (o shamisen, um instrumento de três cordas; o shimedaiko, um pequeno tambor; o koto, uma espécie de cítara e o fue, um tipo de flauta), pintura, caligrafia, dicção, etiqueta, acrobacia, interpretação teatral, a preparação da cerimônia do chá, o domínio de diversas línguas e até política internacional.


 
 
 
 
 
 
Uma gueixa podia ser especialista em apenas uma forma de arte, como canto ou dança, mas precisava ter proficiência em todas elas. Entretanto, o que mais chamava a atenção  era a beleza de seus gestos e seu modo de falar. Espontaneidade não era uma característica de uma maiko. Um dos talentos de uma gueixa deveria ser, e ainda é, transformar o trivial, como um simples movimento de mãos, em arte.


 
 
Além de toda a formação intelectual, elas tinham que ter uma aparência impecável: vestiam quimonos cheios de adornos e que pesavam muitos quilos, aprendiam a arte do oshiroi, a pesada maquiagem e produziam a tinta branca (que continha chumbo, um componente venenoso) usada para pintar o rosto, pescoço e parte do tórax, ritual que consumia uma hora diária. Parte do pescoço - região considerada de extrema sensualidade pelos japoneses - era deixada à mostra como forma de provocação. Outro detalhe que as diferenciava era o batom vermelho que era usado somente no lábio inferior. Calçavam tamancos de madeira (zori) e levavam horas fazendo o penteado que deveria seguir cinco estilos diferentes. Uma maiko iniciante usava um penteado com duas fitas vermelhas que indicavam sua inocência. Essa mudança era determinada pela primeira experiência sexual. Para manter o cabelo perfeitamente arrumado, dormiam sobre travesseiros de madeira e tinham que estar sempre alegres e com postura delicada.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma aprendiz tinha a obrigação de passar vários anos estudando o comportamento de sua mentora para aprender as habilidades que eram adquiridas somente com a experiência. Sua onesan a levava para festas e elas deveriam permanecer quietas e somente observar. Todavia, sua presença não era apenas um aprendizado. O trabalho de sua irmã mais velha era introduzir a maiko na sociedade, tornando-a conhecida. Ter namorado ou  relacionamento com qualquer cliente, nesta fase, estava fora de questão.
 
 
 
 
Quando suas habilidades já eram consideradas suficientemente maduras, a jovem gueixa ganhava o status de geiko (mulher da arte), o que acontecia entre os 20 e os 23 anos. Enquanto maiko, a gueixa usava quimono de cauda e obi (faixa da cintura) largo em cascata nas costas, sempre com colarinho estampado ou colorido, maquiagem muito branca e um grande penteado com pente de casco de tartaruga, flores e pingentes metálicos. Ao se tornar uma geiko, ela passava a usar colarinho branco, quimonos mais discretos e penteados mais simples, ganhando uma aparência mais adulta e elegante. A cerimônia na qual a gueixa aprendiz passava a ser considerada experiente chamava-se erikae (mudança de colarinho). Isso também implicava em novas responsabilidades para a geiko em relação à okiya. A gueixa pagava um percentual de seus ganhos para manter a casa e dar suporte às pessoas sem renda que viviam nela, como as aprendizes, as gueixas aposentadas e as empregadas. Com isso, ela também pagava todo o alto investimento feito pela okaasan na sua formação.
 
 
 
 
As casas onde viviam, muitas vezes, eram sustentadas por um homem rico – o danna (patrono). Para ele, era um símbolo de status. Geralmente ele possuía uma gueixa como amante (ou,  mais raramente, como esposa), mas o fato delas terem contato íntimo com algum homem não era costumeiro.  Quando o danna escolhia sua preferida, devia negociar uma quantia à título de compensação para a okaasan pela educação e hospedagem. Se o danna concordasse com as exigências, a gueixa tornava-se independente da okiya, embora, pudesse continuar a atuar em festas e casas de chá escolhidas  e agendadas por ela.  Entretanto, tal relação deveria permanecer secreta. Se a gueixa identificasse o seu danna, era renegada pela comunidade. Se ela tivesse filhos, ele não tinha a obrigação de assumir a responsabilidade como pai, a não ser garantir o sustento da criança.
Suas atividades consistiam em serem contratadas sob um código de ética rigoroso que exigia, inclusive, a confidencialidade, para entretenimento e atração em festas, reuniões e jantares. O objetivo – e para isso foram treinadas à perfeição – era tornar qualquer evento um sucesso, tratar seus clientes muito bem, descontraí-los com piadas, assuntos amenos e jogos de salão,  proporcionando momentos de prazer e boas conversas. Precisavam estar sempre em movimento, certificando-se de que seus convidados estavam plenamente satisfeitos com a comida, a bebida e completamente à vontade. As gueixas deveriam aprender, desde cedo, a dominar não só as peculiaridades do serviço para o qual eram pagas, mas também as próprias emoções. Não se sentavam à mesa, a não ser quando solicitadas, nunca faziam refeições junto com os clientes e deviam saber, com delicadeza, rechaçar propostas ou comportamentos impróprios. Carismáticas e sedutoras, elas sabiam como conduzir os clientes para o seu mundo de fantasia e um dos segredos era manter a postura sem deixá-los contrariados.


 

Dinheiro nunca era mencionado durante os eventos ou estadas nas casas de chá (ochaya). Cada  momento com gueixas custava uma fortuna. O tempo de serviço era marcado com a ajuda de um incenso que queimava em duas horas.
Era um mundo privado e requintado, mas um privilégio para poucos.
Um dos exemplos mais conhecidos de gueixa que alcançou enorme reconhecimento e fama é o de Mineko Iwasaki. Ainda criança, foi adotada pela renomada okiya Iwasaki, do bairro de Gion em Kyoto, e foi educada para ser a herdeira e sucessora da casa. Aos 29 anos, aposentou-se no auge da carreira, para ter sua própria vida.
O livro de Arthur Golden, “Memórias de uma gueixa”, adaptado em belo filme do diretor Rob Marshall, foi inspirado em sua história. Ela, porém, não satisfeita com algumas descaracterizações feitas no filme, decidiu escrever sua autobiografia, “Gueixa”, em 2002.


 
 
 
 
Fontes das imagens e pesquisas: www.culturajaponesa.com.br
                                                           http://otakuhalls.wordpress.com.br
                                                           http://passeionaspalavras.blogspot.com.br
                                                           http://mhzan.blogspot.com
                                                           www.fragantica.com
 
 
 
 
 
Por Aline Andra