domingo, 25 de agosto de 2013

Paciência - Lenine

 
 


Osvaldo Lenine Macedo Pimentel, pernambucano de Recife, é um cantor, compositor, arranjador, escritor, letrista e músico da melhor safra. Com cinquenta e quatro anos e trinta de carreira, Lenine - assim chamado por conta de uma homenagem do pai socialista ao líder soviético - traz em suas composições, influências de inúmeros gêneros musicais, desconsiderando rótulos e classificações.
Com dez discos lançados, várias participações em álbuns de outros artistas e projetos para cinema e teatro, muitas premiações e ocupante da cadeira 38 como acadêmico correspondente da Academia Pernambucana de Letras, este artista de voz e inspiração intensas é, com certeza, um dos renovadores da música popular brasileira.
 


 
 
 
 

Fonte da imagem: Google
Fonte da pesquisa: www.lenine.com.br
 
 
 
Por Aline Andra
 
 

sábado, 24 de agosto de 2013

Chá e aconchego



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Óleo sobre tela - Albert Lynch
 
 
A hora do chá é sempre um instante de comunhão. Sozinha em um encontro comigo mesma ou acompanhada por amigos na mesma sintonia, essa pausa de tranquilidade e harmonia sempre me foi necessária e muito bem aproveitada. Durante anos fui quase uma dependente dos chás e infusões da Twinings, principalmente do meu preferido, o blend Earl Grey, um dos mais clássicos. Muitos momentos aparentemente inócuos em minha vida tornaram-se lembranças verdadeiramente inesquecíveis graças a  esta participação especial.
Há algum tempo, passei a me interessar pela história e cultura do chá. Existem excelentes fontes de informação por aí, inclusive ótima literatura especializada.
Muito me tem enriquecido o blog Chá, Arte e Vida! da já tão querida Yuri Hayashi, uma apreciadora com conhecimento quase de berço. Suas dicas de boas e confiáveis marcas, comentários sobre as variedades e características desta bebida tão antiga e tão valorizada e suas pesquisas com a Camellia sinensis - a planta do chá - são muito interessantes e atiçam a curiosidade de quem quer saber mais sobre o assunto. Além disso, sua sensibilidade e bom astral (e de seu marido Cláudio Brisighello ) tem me cativado. É sempre um prazer descobrir pessoas que fazem, em minha opinião, as melhores e mais saudáveis escolhas de vida.
É deles esta combinação muito charmosa: o saboroso chá preto e a poderosa e aromática lavanda com um toque cítrico numa “versão brasileira” do Earl Grey.
 
 
 
 
 - Em 500 ml de água, adicione duas cabeças inteiras de lavanda fresca (se for seca, coloque metade da quantidade) juntamente com duas lascas pequenas da casca do limão rosa. Quando ferver, retire do fogo e adicione uma colher de chá preto cheia. Após 3 minutos, coe o líquido e sirva.
 Como nessa época do ano, por falta de sol, o meu vaso de lavanda está sem flores, usei meia colher de sopa da lavanda seca debulhada (encontrada em lojas de produtos naturais).
Delicioso, perfumado e inusitado!
Receita original, aqui.
 
 “Então, bebamos uma xícara de chá. Assim como Kazuko Okakura, autor do “Livro do Chá”, que se consternava com a revolta das tribos mongóis no séc. XIII, não porque ela causara morte e desolação mas porque destruíra, entre os frutos da cultura Song, o mais precioso deles, a arte do chá, eu sei que não se trata de uma bebida menor. Quando se torna ritual, o chá constitui o cerne da aptidão para ver a grandeza das pequenas coisas. Onde se encontra a beleza? Nas grandes coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito?
O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.”
(Trecho de “A elegância do ouriço” de Muriel Barbery)



 


 
                                     http://nature-and-culture.tumblr.com
 
 

 

Por Aline Andra
 
 
 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Carta (Esboço)



Ilustração de Geraldo Roberto da Silva


 
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de fato, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para refletir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exata de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exata, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de fato, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

 

Nuno Júdice (em Poesia reunida, 2001)
 
 
 
 
Por Aline Andra

 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Lugares comuns (Lugares comunes)



 
 
 
 
Ano: 2002 (Argentina, Espanha)
Diretor: Adolfo Aristarain
Atores: Federico Luppi, Mercedes Sampietro, Arturo Puig, Carlos Santamaría

 
 O diretor Adolfo Aristarain nos oferece uma obra reflexiva, baseada no romance El Renacimiento de Lorenzo F. Aristarain, que discute crises em várias dimensões. Materiais, metafísicas ou filosóficas, o que importa é continuar ciente do que o protagonista chama de “a dor da lucidez” – impiedosa e necessária – e entender questões que, de tão repetidas, tornaram-se “lugares comuns” tais como necessidade e liberdade, livre arbítrio e destino, etc.
No início dos anos 2000, com a Argentina devastada pela crise econômica pós-política do presidente Carlos Menem, Fernando Robles (Federico Luppi) é um professor de Literatura numa universidade de Buenos Aires e crítico literário. Com convicções humanistas e iluministas, ele tenta provocar em seus alunos a necessidade de questionar, usar a Razão para tornar-se consciente de um mundo que sobrevive no caos e na desordem.
Casado com Lili (Mercedes Sampietro), uma assistente social que também sente no seu trabalho as consequências da crise do país, ele sofre o baque de ser obrigado - por decreto - a se aposentar. A partir daí, não só passará a receber uma remuneração muito aquém das despesas e necessidades do casal, como se sente compelido ao limiar da “velhice”, com toda a falta de expectativa que isso implica. Fernando entra em depressão e desabafa em seu caderno de apontamentos e pequenas crônicas, seu sentimento de derrota pessoal e do que acredita.
“Eu sei que existe a desordem, a decepção e a desarmonia. Existe um país nos destruindo, um mundo que nos expulsa, um assassino impreciso que nos mata dia após dia, sem que percebamos. Não tenho uma resposta. Escrevo do caos, da mais completa escuridão.”
Enquanto fazem uma viagem de férias a Madri, onde já moraram durante o exílio em plena ditadura militar, para visitar o filho Pedro (Carlos Santamaría), com quem Fernando está em choque  por sentir que fracassara na sua educação ao vê-lo abandonar uma promissora carreira literária e o seu país, buscando estabilidade financeira na Espanha e tomando decisões previsíveis e padronizadas, o casal entende mais precisamente sua condição de "estrangeiros" em qualquer lugar.
Com a ajuda de um amigo, vendem o apartamento onde sempre viveram e compram uma chácara no sul da Argentina. Buscando uma solução financeira, começam a plantar lavanda para destilar a essência e importar para produtores europeus de perfumes. Numa alusão à Revolução Francesa, Fernando pinta numa placa branca, vermelha e azul, o nome do lugar: “1789”. Colocando em prática suas ideias e crenças (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e percebendo a felicidade de Lili, ele sente a esperança e o inconformismo se reacenderem.
Lindo retrato intimista da reinvenção de um casal desiludido, no momento em que só tem um ao outro.
Em minha opinião, um ótimo filme – quase um manifesto – onde brilham não somente atores e diretor, mas também uma trama bem urdida e diálogos inteligentes e sem sentimentalismos.
 
 

 
 
 

Por Aline Andra
 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Todas as criaturas

 
 
 
 

"Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho."
(Adélia Prado)
 
  
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Fontes das imagens: http://wp.clicrbs.com.br
                                     http://jualfiquepordentrodetudo.blogspot.com
              
 
 

 
 

 
 Por Aline Andra

 
  

sábado, 10 de agosto de 2013

Saúde e sabedoria



 


Meu “filho” único e adotivo, um cãozinho poodle muito especial – como achamos que são todos os filhos – adoeceu. Com problemas renais, cardíaco e já idoso, necessitou de cuidados médicos e internação. Apesar do medo de perdê-lo ou vê-lo sofrer, tive a grata e preciosa experiência de conhecer pessoas também muito especiais: os Veterinários!
Entende-se que, de modo geral, quem convive e cuida de animais deve ter uma reserva extra de afeto e respeito, mas em meio a tantas histórias de decepções e desamparo na área da saúde – pública e particular – é sempre surpreendente encontrar profissionais que são tão competentes quanto amorosos e compassivos. Eu tive essa sorte e estou feliz tanto por receber de volta esta pequena e peluda criatura mais sadia e vivaz, quanto por ter recuperado minha fé nas infinitas possibilidades de descobertas e agradáveis surpresas que nós, humanos cuja credibilidade anda meio abalada, ainda somos capazes de proporcionar uns aos outros.
Para quem está no Rio de Janeiro, a sempre oportuna recomendação:

 Bichos&Caprichos
Rua: Lemos Cunha, 203/loja 103 – Icaraí, Niterói
Telefone: (21) 2611-3594

Nossa gratidão (minha e de meu marido) à Dra. Ana Paula Couceiro, que com tranquilidade e segurança nos deu todas as respostas e, com a rapidez que a situação exigia, nos orientou na direção certa.

 
Vet Help
Rua: Roberto Silveira, 196 – Icaraí, Niterói
Telefone: (21) 2611-0303

Nossa gratidão a toda a simpática e eficiente equipe. Ao Dr. Glauber Leal Martins, ainda tão jovem, mas com o limpo e sábio olhar de quem já nasceu com a alma amadurecida e consciente do seu papel no equilíbrio e manutenção do bem deste nosso pequeno mundo e neste tempo que nos cabe, nossa admiração incondicional.

 

 

 

Por Aline Andra
 
 
 

domingo, 4 de agosto de 2013

A luz é como a água - Gabriel García Márquez


 
 
 
 
No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.
— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.
— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.
— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.
Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.
— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.
No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.
— Parabéns — disse o pai. — E agora?
— Agora, nada – disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.
Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.
Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.
— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.
E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.
— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter, além disso, equipamento de mergulho.
— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.
— Não – disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.
— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.
No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.
Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.
O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.
— Deus te ouça — respondeu a mãe.
Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.
Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que se agitava com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dente de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.
No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo em que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.
 
Dezembro de 1978.



 
 SOBRE O AUTOR:

A literatura latino-americana conheceu um processo de crescente reconhecimento internacional a partir da segunda metade do século XX. Gabriel García Márquez, com certeza, foi um dos responsáveis por esta mudança que se constituiu afinal numa "nova" vanguarda literária, na qual figuraram outros autores de primeiro quilate como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes.
Colombiano da aldeia de Aracataca, na costa caribenha, nasceu em 6 de março de 1928. Gabo, como era chamado por amigos e parentes desde a infância, interessou-se pelo mundo da fantasia, pois foi criado por seu avô, veterano da guerra civil, que narrava-lhe suas aventuras militares e pela avó, que relatava-lhe fábulas e lendas que transmitiam sua visão supersticiosa e mágica da realidade.
Encontra-se aí o cerne e o berço de sua escrita “simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, sem dúvida, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários que bem podem estar na origem de uma nova mitologia literária”.
A este estilo, deu-se o nome de Realismo Fantástico ou Realismo Mágico. Apropriado nos contos e romances onde o verossímil se nivela ao inverossímil numa completa coerência narrativa, mas acho que não se pode classificar uma obra tão extensa e diversificada sem incorrer no erro da simplificação que só desmerece esse que é um dos autores mais importantes e premiados do mundo, inclusive com o Prêmio Nobel de Literatura de 1982.
Sua ligação com seu tempo e com sua identidade latino-americana fez com que ele não se rendesse somente às obras ficcionais. Consagrou-se na carreira jornalística ao ingressar inicialmente na redação de “El Espectador”, onde se tornou o primeiro crítico de cinema do jornalismo colombiano e depois um brilhante cronista, repórter e roteirista de cinema. Foi um ativista político e teve participação significativa na história de seu país e na revolução cubana, de quem se tornou o principal defensor intelectual.
Viveu na Venezuela, França, Estados Unidos e, finalmente, México, já casado e com dois filhos.
Em 1967, depois de publicar vários contos e seu primeiro livro de ficção “Ninguém escreve ao coronel”, isolou-se durante dezoito meses (escrevendo diariamente durante mais de oito horas) para se dedicar a um projeto que cultivou em sua mente durante mais de dez anos: o belíssimo “Cem anos de solidão”.
Para mim, lê-lo foi uma descoberta imensurável. Deslumbrei-me com o ambiente mágico da aldeia de Macondo e com seus personagens desconcertantes. A partir daí, nada de sua obra me escapou e apreciá-la foi continuamente uma inspiração e uma provocação aos sentidos. Penso mesmo que sua prosa é de tal delicadeza e sensibilidade que devemos relê-la à medida que amadurecemos. Vamos desvendando-a aos poucos. Como a poesia.
Gabriel García Márquez ainda escrevia até 2009, quando circulou a notícia de que sofria de leve demência e consequente perda da memória, o que o forçou a se aposentar. Após isso, várias notas sobre sua morte e até uma “Carta de despedida” foram divulgadas através dos veículos de comunicação, todas desmentidas pela família. Ainda não encontrei alguma informação realmente confirmada e prefiro assim. Lembro-me de ter lido, em alguma ocasião, que quando o amigo Carlos Fuentes deu-lhe a notícia da morte de Julio Cortázar, também um amigo e fabuloso escritor, García Márquez disse: “Não acredite em tudo que lê nos jornais”.
Então, seguindo a mesma linha de pensamento, creio que está tudo resolvido. Nosso Gabo não morreu nem morrerá jamais. Ficará “encantado”.
 
 
 
Fonte das imagens: Google
 
 
 
Por Aline Andra