terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Raiz de orvalho

 
 
 
 
 
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei  ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


Mia Couto

 

 

 

Por Aline Andra

 

 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)




 

Morreu inesperadamente hoje, aos 46 anos, este excelente ator que começou a chamar minha atenção em Perfume de Mulher (Scent of a Woman), um filme de 1992, com Al Pacino. Ainda muito jovem, marcou presença com um desempenho que já prometia muito. Não nos decepcionou. Durante seus vinte e três anos de carreira, ele provou sua versatilidade e competência ao tomar posse de personagens que não conseguiríamos imaginar na pele de mais ninguém.
Em 2005, Hoffman interpretou o papel-título do filme biográfico “Capote”, pelo qual conquistou diversos prêmios, incluindo um Oscar de Melhor Ator. Foi indicado por outras duas vezes à estatueta como Melhor Ator Coadjuvante. Ele também foi um premiado ator e diretor teatral. Passou a fazer parte da LABrinth Theater Company em 1995 e, desde então, dirigiu e atuou em diversas produções Off-Broadway. Reconhecimentos mais do que merecidos. Vou torcer para que sua vida pessoal e os motivos de sua morte não sejam por demais esmiuçados pela imprensa. Afinal, o que importa - para quem o admirava - é que não foi só o cenário cinematográfico que perdeu uma figura ímpar. Perdemos todos nós.
Abaixo, uma lembrança de seu talento numa cena impagável do filme Ninguém é perfeito (Flawless) de 1999, com Robert de Niro.



 


 

Por Aline Andra

 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Viagem no tempo: sacrifícios pela beleza - parte 3




No séc. XXI, desde complexas cirurgias até sofisticados tratamentos envolvendo alta tecnologia, numa busca perturbadora e bastante questionável pela perfeição do corpo, tudo é possível. E como a novidade é a “alma do negócio”, os tratamentos naturais também estão ganhando cada vez mais espaço e credibilidade. 





No Japão, o tratamento facial de 60 minutos com gosma de caracol está fazendo sucesso. Segundo os esteticistas, os moluscos possuem antioxidantes que ajudam a remover células mortas e hidratar a pele, principalmente após queimaduras do sol.

 


Outro procedimento que está na moda, principalmente entre os americanos, é usar o próprio sangue coagulado – retirado do braço – para estimular a firmeza da pele. Um coagulante é adicionado ao sangue para torná-lo viscoso e quando está com a textura de um gel, ele é aplicado como o Botox.

 
 
Na China, o tratamento chamado Huo Liao (tratamento de fogo), tem como objetivo reduzir a flacidez e as rugas. Um produto especial é passado na toalha e depois com a ajuda do álcool, o fogo é ateado. Segundo os especialistas, o método é absolutamente seguro.


 

Um tratamento que promete tornar a pele mais luminosa, devido à presença da guanina que faz uma limpeza completa, é feito com excrementos de pássaros (principalmente o rouxinol). As fezes são submetidas a uma luz ultravioleta para desinfecção e depois são moídas até se obter um pó muito fino que é misturado ao farelo de arroz para neutralizar o cheiro. Esta técnica é utilizada desde o séc. XVIII, no Japão, pelos dançarinos Kabukis.




Principalmente em Israel, a moda é deixar que cobras não venenosas deslizem sobre as costas do indivíduo, afastando todo o stress dos seus músculos e articulações.


 
 
No Japão, outro tratamento que está se tornando popular, embora seja conhecido há mais de setenta anos, é o banho de serragem fermentada para reverter o envelhecimento. A pessoa é quase totalmente coberta por serragem de madeira de cedro e cipreste a 40º durante 15 a 20 minutos. Supostamente isso ajuda a melhorar a circulação sanguínea, limpa a pele e diminui as dores musculares.


 

Mais conhecido em todos os lugares, o diferencial dessa máscara de rejuvenescimento é o uso do chocolate.


 

Centenas de litros de Beaujolais Nouveau, um dos vinhos mais apreciados pelos japoneses, são despejados nas piscinas de spas de luxo. Bom para a pele!




O tratamento com ouro é uma massagem facial suave após a aplicação de folhas de ouro de 24 quilates.


  

As pessoas estão se deixando mordiscar por pequenos peixes que se encarregam da tarefa de retirar as cutículas e as peles mortas dos pés.

 
 

O banho de cerveja à base de plantas e sem adição de produtos químicos é oferecido como tratamento de beleza em spas da República Tcheca.

 
 
O creme de veneno sintético de cobra é utilizado para inibir contrações musculares no rosto e para obter-se um olhar mais jovem, pretendendo inibir também o envelhecimento. O efeito paralisante é o mesmo do Botox.


 
 
Lançado na Inglaterra, um novo tratamento para os cabelos consiste na aplicação de sêmen orgânico de touro da raça Angus. Proteína pura, a substância combinada com Katera, outra proteína extraída da raiz de determinadas plantas, nutre e revitaliza.


 

 Na China, o hábito que remonta à dinastia Tang, consiste em se enterrar até o pescoço na lama. A crença é de que alivia dores causadas por várias doenças, incluindo artrite reumatóide, traumatismos e desordens do sistema nervoso.

 
 
 
No México, são usados pedaços de cactos, cujos espinhos foram removidos, para massagens de relaxamento.


 

Há muitos anos, as sanguessugas são utilizadas em Medicina, sendo especialmente eficazes no alívio de dores articulares e musculares. Como tratamento de beleza, diz-se que são excelentes como agentes desintoxicantes (colocadas sobre a pele, elas sugam o sangue até ficarem saciadas e caírem) permitindo a melhoria da circulação sanguínea, rejuvenescendo o sistema respiratório, aliviando enxaquecas, sinusites, dores menstruais e flatulência.





Principalmente na China, a apiterapia (tratamento com veneno de abelhas) está ficando cada vez mais popular. O uso dos produtos da colmeia, incluindo o mel, própolis, pólen, geleia real e o veneno tratam a artrite, reumatismo, dor nas costas, doenças de pele e até atua favoravelmente no combate à esclerose múltipla.



De modo geral, acho que os tratamentos alternativos são bem interessantes. Por estarem associados à Natureza, acredito na sua eficácia e, com certeza, são menos agressivos, mais divertidos e permitem até uma percepção e reflexão sobre o grande mistério que nos cerca, mas as coisas estão ficando um pouco fora de controle, não acham?






Fontes das imagens e pesquisa:http://glamurama.uol.com.br
                                                         http://beleza.terra.com.br
                                                         http://notícias.uol.com.br
                                                         www.materiaincognita.com.br
                                                         www.hypeness.com.br
                                                         www.ironicosocial.com.br
                                                         www.modismonet.com
                                                         http://gente-estranha.blogspot.com.br
                                                         http://beautyfashionlounge.blogspot.com.br








Por Aline Andra







sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Viagem no tempo: sacrifícios pela beleza - parte 2





No séc. 20, com o avanço dos recursos tecnológicos, os truques da indústria de cosméticos e o incentivo já massacrante da mídia, as mulheres passaram a se submeter a tratamentos prolongados, tão inventivos ou curiosos quanto os dos séculos anteriores e utilizar  geringonças estranhas para obter os resultados sugeridos pela moda.



 
 
O “congelamento” de sardas com dióxido de carbono era um tratamento popular na década de 30. Os olhos das pacientes eram protegidos com plugs herméticos e suas narinas eram vedadas, utilizando-se um tubo para a respiração.





O “permanente”, técnica usada para enrolar os cabelos, sendo realizado na Alemanha em 1929.




 Os secadores de cabelo eram assustadores.




 
 Usada nos anos 40, esta máscara era conectada a um aquecedor para estimular a circulação e rejuvenescer a pele.




 
 Esta cadeira de massagem era utilizada nos anos 40 para diminuir a flacidez após a perda de peso.




 
 Max Factor inventou este dispositivo em 1930 para a aplicação e correção da maquiagem.




 
 A máscara de gelo, também inventada por Max Factor, era confeccionada com cubos de plástico e tornou-se popular nos anos 40 ao ser adotada por muitas estrelas de Hollywood.




 
 Na mesma época, esta touca era usada para tornar a pele rosada, simulando as condições alpinas.




 
 As mulheres usavam máscaras de borracha para se livrarem das rugas.




 
 A máscara de frutas era muito utilizada em 1930.




Este aparelho com mola era colocado em torno do rosto para formar covinhas nas bochechas.
 
 
 


 Também dos anos 30, esta máquina de sucção funcionava com pontas de vidro, uma mangueira de borracha e uma bomba de vácuo para manter a pele lisa e sem manchas.




 
 Em 1940, as banhistas usavam capas como esta para se proteger do sol.





 

 
Fontes das imagens e pesquisa: http://fotos.br.msn.com
                                                         http://obviousmag.org

 




Por Aline Andra 


 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Viagem no tempo: sacrifícios pela beleza - parte 1



Mariana in the South - Óleo sobre Tela
John William Waterhouse


A ditadura da beleza não é um fenômeno recente. A imposição pela busca dos padrões estéticos e comportamentais do momento sempre foi implacável. Das fundações da civilização aos tempos atuais, a estética representa uma forma de linguagem que define as sociedades.
Eis alguns exemplos:
Registros históricos garantem que no Egito Antigo, durante o séc. XIV A.C., a rainha Nefertiti se banhava todas as manhãs com água e carbonato de cal e esfregava o corpo com uma pasta de argila do rio Nilo para manter a pele macia e jovem. Para os cabelos, as mulheres egípcias aplicavam gordura de rabo de jacaré.





Na Roma Antiga, as mulheres usavam máscaras faciais durante a noite compostas de farinha, miolo de pão e leite de jumento para melhorar a pele. Durante o dia, utilizavam giz para manter a cútis mais clara, sais de antimônio para realçar os olhos e, pasmem, o suor dos gladiadores era coletado e vendido como eficiente cosmético. Além disso, o tratamento anti-idade era feito com a aplicação de placenta de vaca ainda quente ou uma mistura feita de genitais de vitela dissolvida em vinagre com enxofre. A urina também era utilizada como máscara facial ou para branquear os dentes.






 
Na Idade Média, o ideal de beleza era ostentar uma testa grande. Então, as mulheres usavam ingredientes como sulfeto de arsênico, cal viva, unguentos feitos de cinzas de ouriço, sangue de morcego, asas de abelhas, mercúrio e baba de lesma para depilar, polir e branquear a testa.




No séc. XVI, o pó de arroz surgiu como uma espécie de shampoo seco, usado no cabelo durante a noite, para na manhã seguinte ser eliminado com um pente, juntamente com a gordura e outras impurezas do couro cabeludo.
 

 


No início do séc. XVII, os aristocratas bebiam vinagre e suco de limão para manter a pele branca. Também se maquiavam com um pó branco (mistura de pó de arroz, talco e umas gotas de tintura de benjoim, que obstrui os poros). No caso das mulheres, o decote e as costas também eram recobertos com o mesmo pó. Veias poderiam ser traçadas com lápis azul para destacar a brancura da pele. Mais tarde, devido às epidemias que deixavam as pessoas naturalmente pálidas, a pele sem cor deixou de ser popular. Fazer com que as faces ficassem coradas e com aspecto saudável tornou-se o objetivo de todos.



Século XVIII


No séc. XVIII, o status estava relacionado à altura do cabelo. As mulheres usavam perucas e adornos imensos na cabeça. Nessa época, a máscara usada durante a noite para preservar a pele era de  ferro.





No séc. XIX, o método de eliminação das rugas chamava-se "esmaltado do rosto". Lavava-se o rosto com um líquido alcalino para aplicação de uma pasta, preenchendo as rugas. Por cima, colocava-se uma camada de esmalte feita com arsênio e chumbo, que durava cerca de um ano. Apesar da grossa espessura, a máscara podia rachar com os menores movimentos.

 

 
 
 
 

Fontes das imagens e pesquisa: http://quandovovoeramoca.blogspot.com.br
                                                         http://g1.globo.com
                                                         www.mulherviajante.com.br
                                                         http://commons.wikimedia.org
                                                         http://mulher.uol.com.br
                                                         http://paleet.adamogeva.no



Por Aline Andra
 
 
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014