domingo, 10 de agosto de 2014

Viagem no tempo: história dos óculos - parte 1




 

 Não há como negar: os óculos devem estar na lista das invenções mais importantes do mundo. Eles foram desenvolvidos graças ao trabalho de artesãos como vidreiros, joalheiros e relojoeiros juntamente com algumas das mais brilhantes mentes ao longo dos séculos que muito contribuíram para o aperfeiçoamento deste valioso instrumento.
A palavra óculos surgiu com o termo ocularium, na Antiguidade Clássica, para designar os orifícios das armaduras dos soldados da época, que permitiam que os mesmos enxergassem, mas ninguém realmente sabe determinar o início da história da ampliação da imagem.



 
Na história dos antigos egípcios há referências sobre o uso de lentes sem grau como adorno.
Marco Polo relatou em seu livro sobre viagens ao Oriente que os óculos eram de uso corrente na China, na corte de Kublai Khan, por volta de 1275 a.C.
No século IV a.C., Euclides escreveu a "Óptica", com base na ideia de que o tamanho dos objetos era determinado pelo ângulo sob o qual eram olhados.
Já Ptolomeu, durante o século II a.C., também escreveu uma obra denominada "Óptica". Sua linha de pensamento era diferente da de Euclides: em vez de considerar relevante apenas o ângulo visual, o foco serão os comprimentos.
Uma antiga referência histórica sobre a existência dos óculos também foi encontrada em textos do filósofo Confúcio em 500 a.C. Durante séculos serviram apenas como acessórios aos nobres chineses ou meros objetos de discriminação social em relação às pessoas do povo e portadores de doenças mentais.


 
 
Mas foi na Roma dos Césares que aconteceu a primeira mudança do conceito sobre lentes. No século I depois de Cristo, o imperador Nero descobriu a eficiência das lentes coloridas para proteger a visão da luz do sol ao usar uma lâmina de pedra verde (provavelmente esmeralda) sobre os olhos, durante as famosas apresentações públicas nas arenas romanas.
Nesta época, surgiram as primeiras lentes corretivas, que eram feitas com pedras semipreciosas cortadas em finas tiras, dando origem aos óculos de grau para perto, graças ao matemático e astrônomo árabe Alhazen (965-1038) que formulou uma teoria sobre a incidência de luz em espelhos esféricos e como isso reagia no olho humano. As “pedras de leitura” funcionavam como lupas primitivas que aumentavam o tamanho das letras e eram compostas basicamente de cristal de quartzo hialino ou de pedras semipreciosas que recebiam lapidação e polimento. Uma das mais cobiçadas era o Berilo por seu brilho, beleza e transparência. Aliás, foi o seu nome que derivou a palavra brilho.
Entre os séculos IX e XI d.C., avançaram os estudos sobre o assunto. Apenas no século XII, mil anos após Ptolomeu, a Europa se volta novamente ao estudo de visão de objetos.
Porém, a existência do vidro remonta aos tempos pré-cristãos e existem registros históricos afirmando que já antes do final do primeiro século da era cristã, os fenícios, inspirados pelos chineses, iniciaram a arte de fabricação do vidro, descobrindo que a mistura da areia ao salitre, fundida pelo calor do sol, resultava em vidro bruto. No Egito, em 1500 a.C., já existia uma bem estabelecida indústria vidreira. Segundo a tradição acreditava-se que este conhecimento vinha do sábio alquimista Hermes Trimegisto.
O que se sabe é que em algum momento entre o ano 1000 e 1250 d.C., este material foi aperfeiçoado para ser usado como lentes e as lupas de vidro foram desenvolvidas através de uma tecnologia bruta. Em 1268, o frade franciscano inglês Roger Bacon (1220-1292) em sua obra “Opus Majus”, observou que as pessoas conseguiam enxergar melhor através de menos da metade de uma esfera de vidro. As experiências de Bacon confirmaram o princípio da lente convexa, descrita por Alhazen. Na época, Bacon presenteou o Papa com uma dessas lentes e os monges foram, sobretudo, os maiores beneficiados por passarem longas horas trabalhando nas grandes bibliotecas da Europa.
O primeiro par de óculos de ferro com aros grandes, unidos por rebite, foi descoberto na Alemanha, em 1270. Com movimentos de compasso, permitia ser ajustado precariamente sobre a ponta do nariz.

 
 
 
Nesse mesmo século, no ano de 1286, um modelo semelhante apareceu em Pisa, na Itália.   
Tecnicamente, eles foram formados a partir de duas lâminas de vidro ou cristal em forma convexa. Cada uma delas foi cercada por uma moldura e recebeu uma alça que foi ligada por um rebite. Eles não eram realmente uma invenção, mas uma adaptação brilhante da simples lupa de vidro.
 Entretanto, não se encontravam óculos por toda parte. Eles eram raros, custavam caríssimo e eram considerados verdadeiras joias. Seu valor era tal que eram relacionados em inventários de bens de família e deixados em testamentos como herança, assim como fez Charles V, o sábio, rei da França (1364-1380).
Existe um registro histórico na China, durante a dinastia Ming (1260-1368), atestando que um rico senhor trocou uma parelha de finos cavalos de raça por um par de óculos.
Somente a partir do séc. XV, a palavra Occhiali e seu uso começou a ser difundido, recebendo um grande impulso para o seu desenvolvimento nas regiões onde outros objetos de vidro estavam sendo produzidos. Nessa época, Veneza e a ilha de Murano mais especificamente estavam se tornando um dos centros mais avançados para a indústria de vidro medieval. A Aliança de Trabalhadores de cristal foi criada oficialmente em 1284 e a organização adotou um termo para os “discos para os olhos” (roidi da ogli ou vetri da occhi) pela primeira vez. Florença tornou-se o principal reduto de fabricantes de óculos de boa qualidade prontamente disponíveis e acessíveis. Os duques de Milão encomendaram óculos florentinos às centenas para dá-los de presente aos seus cortesãos.
 Paralelamente à invenção da imprensa (1450) por Johann Gutenberg, os óculos já eram objetos de desejo de muitos e, ao disponibilizarem os livros, a popularidade deste instrumento essencial aumentou drasticamente. Os primeiros grandes editores na Europa ofereciam conjuntamente a venda de um livro e a de óculos para leitura.
Outros centros de produção em países como Alemanha, França e Holanda começaram a surgir. Documentos comprovam que, até o final do séc. XV, milhares de óculos estavam sendo exportados de um país para outro em toda a Europa.
 As armações de couro foram sendo substituídas aos poucos por outros materiais: madeira, chifre, casca de tartaruga, osso, marfim e metais, tais como ferro, prata, ouro e outras ligas. 
Um vendedor circulando pelas ruas era uma visão comum. As pessoas vasculhavam cestos cheios de óculos com armação de metal e tiras de couro alemão até conseguirem escolher o mais adequado ao seu problema de visão.
 
 
 
 
No início eles começaram a ser usados somente para a visão de perto, para leitura, para corrigir a Presbiopia ou "vista cansada". Aos poucos eles passaram a ser usados também para a correção da Hipermetropia. Entretanto o primeiro registro do uso para a Miopia só foi feito em 1441 por Nicolaus Cusanus em seu livro "De Beryllo". Já a correção do Astigmatismo, por meio de lentes cilíndricas, só aconteceu bem mais tarde, na Inglaterra, em 1827.
Antes disso, em 1611, Kepler já havia introduzido o uso de prismas. Após 1665, quando o primeiro jornal, “A Gazeta de Londres”, apareceu, a demanda aumentou ainda mais. O uso de óculos passou a ser considerado um símbolo de cultura e status.
Os óculos foram evoluindo substancialmente desde sua criação na Idade Média. Uma das maiores transformações está ligada ao design. “Após o primeiro modelo de ferro, os franceses fizeram várias modificações na armação e a transformaram no pince-nez (pinça de nariz), com lentes para perto e fixada na metade do septo nasal; o lorgnon, cuja característica era uma haste lateral para ser segurada; e a lorgnette, primeira peça criada exclusivamente para a mulher”. A lorgnette era uma peça delicada e tinha uma haste lateral de 20 a 50 centímetros. Os três modelos são do século XV e além de utilitários, serviam também como joias para seus usuários dada a riqueza de materiais – como ouro e outros metais nobres – e pedras preciosas incrustadas nas armações.
 











 



Fontes das imagens e pesquisa: www.antiquespectacles.com
                                                         www.opticanet.com.br 
                                                         http://pt.wikipedia.org
                                                         www.zeiss.com.br 
 
 
 
 
                
 

Por Aline Andra



domingo, 3 de agosto de 2014

Clair de lune - Debussy

 
 
 
 
 
Há dias perfeitos para se ouvir música clássica e sinto que os domingos combinam especialmente com as composições de Claude Debussy (1862-1918).
A quase inacreditável de tão bela, Clair de lune, na interpretação impecável de Sanae Takagi.
 
 
 






Por Aline Andra
 
 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Noturno






Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha.
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

 Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mãos…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?



Ariano Suassuna (16 de junho de 1927-23 de julho de 2014)

 
A “Caetana”- como é chamada a morte no sertão da Paraíba e Pernambuco - veio buscar o Grande Ariano. Escritor, dramaturgo, poeta, professor, advogado, acadêmico, idealizador do Movimento Armorial (cujo objetivo é criar arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina) e provavelmente muito mais se tempo houvesse, ele foi um dos que lutaram bravamente a favor de uma cultura genuinamente brasileira. Ariano já foi chamado de “Dom Quixote arcaico”, por viver esgrimindo contra os moinhos de vento da globalização. Não se incomodou. Por que o faria? Foi capaz de construir uma literatura épica, incomum e absolutamente valorosa.
E se ao chegar, curioso e festejado, nesse outro mundo cheio de novos desafios, alguém perguntou “Como foi? Conta para mim!”, ele  talvez tenha respondido, à moda de Chicó do Auto da Compadecida:
-”Não sei. Só sei que foi assim!”


 

 



Por Aline Andra
 

 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Um doce olhar (Bal)







Ano: 2010 (Turquia, Alemanha)
Diretor: Semih Kaplanoglu
Atores: Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, Alev Uçarer

 

Quem prefere filmes com boas doses de ação e grandiloquência (incluindo trilhas sonoras que, muitas vezes, somam um valor considerável) talvez não goste de Um doce olhar cujo título original significa Mel em turco.
Achei-o perfeito, uma proposta ousada do diretor na sua intenção de oferecer uma obra contemplativa e lenta, cheia de significados que somente uma apreciação tranquila e doce (por favor, não confunda com pieguice) consegue captar.
Esta é uma história de pessoas simples e com todos os sentidos preservados e aguçados como só aquelas que vivem em meio à natureza ainda possuem.
E assim é Yusuf (o encantador Bora Altas), um menino de seis anos que vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu), apicultor que vagueia pela floresta à procura de colmeias e sua mãe Zehra (Tülin Özen), plantadora de chá, numa província cercada de montanhas no norte da Turquia. Arredio e introvertido, Yusuf sente, principalmente na escola, a grande dificuldade de comunicação de todos os tímidos a ponto de sofrer crises de ansiedade que provocam gagueira na hora da leitura ou de necessitar isolar-se na hora do recreio.
Seu silêncio, entretanto, não deve ser associado com apatia. Ao contrário, ele entende e reage ao mundo que vai descobrindo com sensibilidade e discernimento. E encontra ao seu redor, um rico material para observação e aprendizado. Desde os prosaicos sons exteriores que são, propositalmente, a única trilha sonora do filme como o vento nas folhas das árvores, a terra e a lama sendo pisadas, os ruídos dos animais, os galhos caindo, a água em correnteza e tantos outros que dominam a cena quando realmente ouvidos até os barulhos e movimentos do cotidiano de uma casa como o crepitar do fogo, sua mãe trabalhando na cozinha, o sininho que ele carrega preso em si mesmo ou a lua cheia refletida na água. Tudo é relevante e digno de atenção.
Apesar de amado por todos, ele encontra a cumplicidade no pai que, intuitivamente, o deixa à vontade para expressar-se a seu modo. Suas conversas são tão íntimas que devem ser sussurradas como segredos que não devem ser espalhados assim como os sonhos. E o conforto, ele encontra na misteriosa floresta, o lugar que o acolhe quando a vida se apresenta como um susto e uma perda irreparável.
Bal é um filme que provoca uma sensação de sonolência ou adormecimento, não por ser enfadonho como ouvi de alguns, mas por ser apaziguador. Como em seu final.
A fotografia é de uma beleza especial. Com poucos movimentos de câmera, algumas imagens com enquadramentos perfeitos de luz e sombra lembraram-me realmente os quadros do pintor holandês Vermeer.
Vale destacar que o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e é o terceiro de uma série, embora completo em si. Os outros dois longas são Süt (Leite) de 2008 e Yumurta (Ovo) de 2007. A trilogia conta, em retrospectiva, a vida de Yusuf da idade adulta à infância.
 






Por Aline Andra


domingo, 20 de julho de 2014

Memória de Livros - João Ubaldo Ribeiro






 Aracaju, a cidade onde nós morávamos no fim da década de 40, começo da de 50, era a orgulhosa capital de Sergipe, o menor Estado brasileiro (mais ou menos do tamanho da Suíça). Essa distinção, contudo, não lhe tirava o caráter de cidade pequena, provinciana e calma, à boca de um rio e a pouca distância de praias muito bonitas. Sabíamos do mundo pelo rádio, pelos cinejornais que acompanhavam todos os filmes e pelas revistas nacionais. A televisão era tida por muitos como mentira de viajantes, só alguns loucos andavam de avião, comprávamos galinhas vivas e verduras trazidas à nossa porta nas costas de mulas, tínhamos grandes quintais e jardins, meninos não discutiam com adultos, mulheres não usavam calças compridas nem dirigiam automóveis e vivíamos tão longe de tudo que se dizia que, quando o mundo acabasse, só íamos saber uns cinco dias depois.
Mas vivíamos bem. Morávamos sempre em casarões enormes, de grandes portas, varandas e tetos altíssimos, e meu pai, que sempre gostou das últimas novidades tecnológicas, trazia para casa tudo quanto era tipo de geringonça moderna que aparecia. Fomos a primeira família da vizinhança a ter uma geladeira e recebemos visitas para examinar o impressionante armário branco que esfriava tudo. Quando surgiram os primeiros discos long play, já tínhamos a vitrola apropriada e meu pai comprava montanhas de gravações dos clássicos, que ele próprio se recusava a ouvir, mas nos obrigava a escutar e comentar.
Nada, porém, era como os livros. Toda a família sempre foi obsedada por livros e às vezes ainda arma brigas ferozes por causa de livros, entre acusações mútuas de furto ou apropriação indébita. Meu avô furtava livros de meu pai, meu pai furtava livros de meu avô, eu furtava livros de meu pai e minha irmã até hoje furta livros de todos nós.  A maior casa onde moramos, mais ou menos a partir da época em que aprendi a ler, tinha uma sala reservada para a biblioteca e gabinete de meu pai, mas os livros não cabiam nela -- na verdade, mal cabiam na casa. E, embora os interesses básicos dele fossem Direito e História, os livros eram sobre todos os assuntos e de todos os tipos.  Até mesmo ciências ocultas, assunto que fascinava meu pai e fazia com que ele às vezes se trancasse na companhia de uns desenhos esotéricos, para depois sair e dirigir olhares magnéticos aos circunstantes, só que ninguém ligava e ele desistia temporariamente. Havia uns livros sobre hipnotismo e, depois de ler um deles, hipnotizei um peru que nos tinha sido dado para um Natal e que, como jamais ninguém lembrou de assá-lo, passou a residir no quintal e, não sei por quê, era conhecido como Lúcio.  Minha mãe se impressionou porque, assim que comecei meus passes hipnóticos, Lúcio estacou, pareceu engolir em seco e ficou paralisado, mas meu pai - talvez porque ele próprio nunca tenha conseguido hipnotizar nada, apesar de inúmeras tentativas - declarou que aquilo não tinha nada com hipnotismo, era porque Lúcio era na verdade uma perua e tinha pensado que eu era o peru.
Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto.  Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.
- D. Gilete - disse ele, apresentando-me a senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo -, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.
"Aplicar as regras", soube eu muito depois com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou burrice por parte do aluno. Felizmente D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.
- Esses daí agora não - disse ele. - Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são uma porcaria, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.
Duraram bem pouco, sim, porque de repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, frequentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis. Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa - e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
- Meu filho está doido - disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. - Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.
- Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.
- Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
- O Lello. - Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários.  Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação.
Sim, tínhamos muitas conversas sobre livros. Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos - a livre propriamente dita e a incerta. A compulsória variava conforme a disposição de meu pai.  Havia a leitura em voz alta de poemas, trechos de peças de teatro e discursos clássicos, em que nossa dicção e entonação eram invariavelmente descritas como o pior desgosto que ele tinha na vida. Líamos Homero, Camões, Horácio, Jorge de Lima, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha, dezenas de outros.  Muitas vezes não entendíamos nada do que líamos, mas gostávamos daquelas palavras sonoras, daqueles conflitos estranhos entre gente de nomes exóticos, e da expressão comovida de minha mãe, com pena de Antígona e torcendo por Heitor na Ilíada. Depois de cada leitura, meu pai fazia sua palestra de rotina sobre nossa ignorância e, andando para cima e para baixo de pijama na varanda, dava uma aula grandiloquente sobre o assunto da leitura, ou sobre o autor do texto, aula esta a que os vizinhos muitas vezes vinham assistir. Também tínhamos os resumos - escritos ou orais - das leituras, as cópias (começadas quando ele, com grande escândalo, descobriu que eu não entendia direito o ponto-e-vírgula e me obrigou a copiar sermões do Padre Antônio Vieira, para aprender a usar o ponto-e-vírgula) e os trechos a decorar. No que certamente é um mistério para os psicanalistas, até hoje não só os sermões de Vieira como muitos desses autores forçados pela goela abaixo estão entre minhas leituras favoritas. (Em compensação, continuo ruim de ponto-e-vírgula).
Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos.  Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:
- Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!
O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta; O Livro de San Michele, Crônica Escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O Crime do Padre Amaro - enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas - e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.
Na área proibida, não pode deixar de ser feita uma menção aos pais de meu pai, meus avós João e Amália. João era português, leitor anticlerical de Guerra Junqueiro e não levava o filho muito a sério intelectualmente, porque os livros que meu pai escrevia eram finos e não ficavam em pé sozinhos. "Isto é uma merda", dizia ele, sopesando com desdém uma das monografias jurídicas de meu pai. "Estas tripinhas que não se sustentam em pé não são livros, são uns folhetos". Já minha avó tinha mais respeito pela produção de meu pai, mas achava que, de tanto estudar altas ciências, ele havia ficado um pouco abobalhado, não entendia nada da vida. Isto foi muito bom para a expansão dos meus horizontes culturais, porque ela não só lia como deixava que eu lesse tudo o que ele não deixava, inclusive revistas policiais oficialmente proibidas para menores. Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai ficava preocupado.
- D. Amália - dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo -, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição.  A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado , cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.
- Senhor doutor - respondia minha avó -, sou avó deste menino e tua mãe. Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem. Levo o menino sem condição nenhuma e, se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes, que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor.
E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abestalhado para a vida, e meu avô, que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler - Amália tinha razão, se o menino queria ler que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que ficava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:
- Uma de cada?
- Uma de cada - confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não-proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós. - Mande levar. E agora aos livros!
Depois da banca, naturalmente, vinham os livros. Ela acompanhava certas coleções, histórias de "Raffles, Arsène Lupin", Ponson du Terrail, Sir Walter Scott, Edgar Wallace, Michel Zevaco, Emilio Salgari, os Dumas e mais uma porção de outros, em edições de sobrecapas extravagantemente coloridas que me deixavam quase sem fôlego. Na livraria, ela não só se servia dos últimos lançamentos de seus favoritos, como se dirigia imperiosamente à seção de literatura para jovens e escolhia livros para mim, geralmente sem ouvir minha opinião - e foi assim que li Karl May, Edgar Rice Burroughs, Robert Louis Stevenson, Swift e tantos mais, num sofá enorme, soterrado por revistas, livros e latas de docinhos e bolachinhas, sem querer fazer mais nada, absolutamente nada, neste mundo encantado. De vez em quando, minha avó e eu mantínhamos tertúlias literárias na sala, comentando nossos vilões favoritos e nosso herói predileto, o Conde de Monte Cristo - Edmond Dantès! - como dizia ela, fremindo num gesto dramático. E meu avô, bebendo a cerveja escondido lá dentro, dizia "ai, ai, esses dois se acham letrados, mas nunca leram o Guerra Junqueiro".
De volta à casa de meus pais, depois das férias, o problema das leituras compulsórias às vezes se agravava, porque meu pai, na certeza (embora nunca desse ousadia de me perguntar), de que minha avó me tinha dado para ler tudo o que ele proibia, entrava numa programação delirante, destinada a limpar os efeitos deletérios das revistas policiais.  Sei que parece mentira e não me aborreço com quem não acreditar (quem conheceu meu pai acredita), mas a verdade é que, aos doze anos, eu já tinha lido, com efeitos às vezes surpreendentes, a maior parte da obra traduzida de Shakespeare, O elogio da loucura, As décadas de Tito Lívio, D. Quixote (uma das ilustrações de Gustave Doré, mostrando monstros e personagens saindo dos livros de cavalaria do fidalgo, me fez mal, porque eu passei a ver as mesmas coisas saindo dos livros da casa), adaptações especiais do Fausto e da Divina Comédia, a Ilíada, a Odisséia, vários ensaios de Montaigne, Poe, Alexandre Herculano, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dickens, Dostoievski, Suetônio, os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e mais não sei quantos outros clássicos, muitos deles resumidos, discutidos ou simplesmente lembrados em conversas inflamadas, dos quais nunca me esqueço e a maior parte dos quais faz parte íntima de minha vida.
Fico pensando nisso e me pergunto: não estou imaginando coisas, tudo isso poderia ter realmente acontecido? Acho que sim, também joguei bola, tomei banho nu no rio, subi em árvores e acreditei em Papai Noel. Os livros eram uma brincadeira como outra qualquer, embora certamente a melhor de todas. Quando tenho saudades da infância, as saudades são daquele universo que nunca volta, dos meus olhos de criança vendo tanto que entonteciam, dos cheiros dos livros velhos, da navegação infinita pela palavra, de meu pai, de meus avós, do velho casarão mágico de Aracaju.

 
Texto extraído do livro "Um brasileiro em Berlim", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1995, pág. 137. Dele escreveu Jorge Amado:
"Disse acima que o leitor atravessa as crônicas de João Ubaldo com o sorriso nos lábios. Posso acrescentar que por vezes o faz com a emoção umedecendo os olhos. Neste "Um brasileiro em Berlim " as páginas sobre a infância e as leituras do menino João, na cidade de Aracaju, onde a família Ribeiro viveu alguns anos, são belas e comoventes. Conheci de perto e estimei o jurista Manoel Ribeiro, pai de João. Um homem extraordinário, um pai amantíssimo à sua maneira. Nesta  "Memória de Livros", Manoel Ribeiro, devorador de livros, admirador de clássicos, cidadão áspero e terno, ressurge inteiro, vivo, criando o filho para a liberdade e a indisciplina. Se João Ubaldo é hoje um dos escritores principais do Brasil - e da literatura contemporânea -, creio que ele o deve, sobretudo, ao pai que, tentando aparentemente contê-lo, lhe deu régua e compasso."




 

SOBRE O AUTOR:
 

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941 e faleceu há dois dias, em 18 de julho, aos 73 anos. Perdemos mais um grande escritor, um sedutor que com uma voz de barítono e uma jovialidade contagiante, fazia sua prosa de alta qualidade e conseguia cativar e quase paralisar o leitor, mesmo aquele desatento.
Lembro-me de um tempo em que comprava o Jornal “O Globo” aos domingos, principalmente por causa de suas temperadas crônicas, sempre capazes de provocar um momento enriquecedor no dia.
João Ubaldo começou sua carreira literária como um leitor bem (in)formado, o que já é um privilégio. Isso ele nos conta na crônica acima.
Nos anos 50, ele foi jornalista e editor de jornais e revistas culturais além de ativo participante do movimento estudantil. Apesar de nunca ter exercido a profissão, concluiu o curso de Direito.
Participou com seus contos e crônicas de diversas antologias até 1963, época em que publicou seu primeiro romance, Setembro não faz sentido.
Em 1965 - após voltar de seu exílio voluntário nos EUA, onde fez mestrado em Administração Pública e Ciências Políticas -, lecionou na Universidade Federal da Bahia por seis anos. Desistiu, então, da carreira acadêmica e retornou ao jornalismo.
Em 1971, o sensacional Sargento Getúlio foi lançado pela Editora Civilização Brasileira, alcançando grande reconhecimento e merecendo o Prêmio Jabuti, na categoria “Revelação de Autor”.
Enfim "revelado", ele nos presenteou com obras inesquecíveis. Talvez seus romances mais conhecidos sejam Viva o Povo Brasileiro, publicado pela Editora Alfaguara em 1984, uma saga de quatro séculos de história do país e com setecentas páginas marcadas com sua inegável veia cômica, já transformada em filme (do diretor Hermano Penna e protagonizado por Lima Duarte, nos anos 80) e em tema do samba-enredo da escola Império da Tijuca para o Carnaval de 1987 e A Casa dos Budas Ditosos, lançado em 1999 e escrito sob encomenda para a série Plenos Pecados da Editora Objetiva, que também detém enorme sucesso de vendas e foi transformado em peça teatral (com Fernanda Torres).
Muitas foram as premiações, homenagens e citações às obras de João Ubaldo, mas vale lembrar a sua posse na Academia Brasileira de Letras (em um tempo, creio, em que se prezava somente a qualidade) em 1993 e o Prêmio Camões, em 2008, considerado um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. 









Por Aline Andra


 


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Arte no fundo do mar






Localizado no Parque Nacional Costa Ocidental de Isla Mujeres em Cancun, no México, o Museu Subaquático de Arte (MUSA) apresenta a exposição permanente “A Evolução Silenciosa”.  A proposta inovadora e as obras são do artista inglês Jason deCaires Taylor, formado pelo London Institute of Arts com especialização em escultura e cerâmica. Além disso, Jason é mergulhador e fotógrafo aquático premiado. Este é o seu quarto projeto e, sem dúvida, o maior deles.
Numa área de 420 m², quatrocentas esculturas feitas em material poroso e de PH neutro - ideal para resistir a centenas de anos e não poluir o ambiente ou prejudicar o ecossistema local -, embelezam ainda mais as águas cristalinas. São figuras humanas em tamanho natural e mostradas em situações do cotidiano. Muitas delas são pessoas da comunidade como a freira idosa, a professora de ioga, o contador, o carpinteiro, pescadores, crianças... Todas eternizadas no fundo do mar e integradas à natureza, pois o propósito é também o de promover a vida marinha, servindo como um recife artificial para a criação de novas áreas de corais (foram fixados extratos de corais vivos nas esculturas, uma técnica que estimula ainda mais seu crescimento), desacelerar o avanço do processo de degradação que ocorre devido ao enorme fluxo turístico - acredita-se que até 2050, 80% dos recifes naturais do planeta irão desaparecer - e  fornecer um novo habitat para milhares de espécies marinhas.
As peças, submersas em profundidades diferentes para que possam ser apreciadas por mergulhadores e a partir de barcos com fundo de vidro, levaram cerca de um ano e meio para serem concluídas e a instalação necessitou do auxílio de uma equipe de biólogos, engenheiros e outros mergulhadores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fontes das imagens e pesquisa: www.viajandonomundo.com.br
                                                         http://noholodeck.blogspot.com.br
 
 
 
 
 
Por Aline Andra